“Guardai-vos dos cães” – Paulo (Filipenses, 3:2)
O apóstolo Paulo, no capítuo 3, versículo 2 de sua carta aos Filipenses, faz uma exaltação à perfeição, prevenindo os seus cristãos contra os inimigos da fé, repetindo-lhes as mesmas coisas, advertências já feitas de viva voz ou por escrito. Diz ele: “guardai-vos dos cães, guardai-vos dos maus operários, guardai-vos dos mutiladores”.
Os três “guardai-vos” referem-se às mesmas pessoas, os judaizantes designados como “cães raivosos” que estraçalham o Evangelho genuíno, “maus operários”, semeadores de joio, “mutiladores” com pretensões a impor a observância da circuncisão e outras práticas legais como necessárias à salvação.
Observe, caro leitor, que o apóstolo dos gentios faz uso de uma linguagem simbólica, com a finalidade de alertar aos filipenses simpatizantes do Cristianismo, sobre o perigo da influência nefasta dos judaizantes de má-fé.
O simbolismo de uma expressão empresta força às palavras, revelando o que elas contêm por detrás da forma.
Detenhamo-nos no primeiro dos “guardai-vos”: Guardai-vos dos cães.
Muito ajudará nossa compreensão, um provérbio árabe que diz: “Os cães ladram e a caravana passa”.
Esse dito popular significa que é preciso ignorar as críticas e os obstáculos para seguir em frente e alcançar os objetivos.
Simboliza a ideia de que, apesar das provocações ou do barulho (o ladrar dos cães), o destino (a caravana) deve ser percorrido sem desvios ou interrupções.
Acredita-se que essa expressão remonta aos povos nômades do Oriente Médio. Durante as viagens de caravanas pelo deserto, era comum encontrar cães selvagens ou de guarda. O ditado surgiu para instruir os viajantes a não se deixarem distrair pelos latidos e a continuarem a jornada.
O apóstolo Paulo quando proferiu “guardai-vos dos cães” pretendia incentivar os novos cristãos a manterem o foco em seus objetivos, sem se preocuparem com as opiniões negativas, ou as distrações que surgem pelo caminho.
A estrada evolutiva é infinita. Seus caminhos apresentam-se de formas variadas, e atendem às necessidades de todo caminheiro.
Numa visão mais abrangente, podemos afirmar que os Seres que habitam o planeta Terra, fazem parte de uma imensa caravana que se movimenta em direção de esferas mais altas, sempre sob o olhar compassivo do divino Pastor.
Todavia, se é verdade que caminhamos sob o amparo do Condutor divino, não podemos negar que somos também assediados pelos cães da ignorância e da perversidade.
Mais uma vez o simbolismo clareia nosso entendimento, quando compara o comportamento humano impulsivo e feroz, contrário ao bem e à paz, sempre disposto ao ataque, à guerra, aos cães selvagens que assim o são pela condição instintiva e rude em que estagiam dentro da escala evolutiva. São os que espedaçam, através da calúnia, alguém que por mérito próprio tenha alcançado a admiração de muitos.
São também os que fazem da maledicência, o meio para derrubar construções nobres e dignas, que tanto incomodam aos que não se acham capacitados para tanto.
Há os que se comprazem na prática da crueldade porque, carentes de afeto, alegram-se com o sofrimento alheio.
Adeptos da imposição, principalmente quando assumem postos de comando, sentem prazer em tiranizar seus subalternos.
Temos por muitos os que fazem uso da palavra para desarticular conceitos elevados, serviços santificantes.
São perturbadores da paz, da ordem, pregando a todos que o mal continua vitorioso, que a sombra venceu.
E quando se deixam levar pelo ódio que os consome por dentro, ai daqueles que se aproximam generosos e confiantes.
Embora sejam nossos irmãos, dividindo espaço conosco nessa imensa caravana a que todos pertencemos, é para eles que Paulo nos adverte quanto à prática do verbo “guardar”(vigiar).
Somente o processo educativo poderá transformá-los, um dia. Entretanto, devemos reconhecer que esse recurso de “domesticação” procede de Deus.
Seremos sempre atacados por aqueles que permanecem nas sombras da ignorância, da perversidade, da discórdia.
Tenhamos para com eles a piedade, mas não dispensemos o resguardo e a vigilância.
Ainda que os cães ladrem, a caravana segue, tendo Jesus à frente.
Yvone
Fonte de consulta:
Emmanuel / F.C. Xavier – Fonte iva – Guardai-vos dos cães – cap. 145
