Todas as pessoas que tenham um mínimo de consciência sobre a grandeza da vida almejam a paz no Planeta, seja por comiseração aos irmãos em Humanidade diretamente envolvidos nos conflitos, seja visando a segurança própria e dos descendentes que o ocuparão durante seu ciclo de experiência corpórea, seja ainda em benefício da ascendente transição planetária, processo este que se encontra em pleno andamento e que depende diretamente da evolução moral de seus habitantes.
Além da extinção dos conflitos armados e de todos os males decorrentes das discórdias de um modo geral, o que se pretende é viver em harmonia, para melhor cumprirmos os desígnios que a existência nos reserva.
Com o pensamento no mais Alto, assim costumamos rogar em nossas preces, enfatizando não sejamos importunados, provocados, perturbados, para que em nosso entorno reine o bem-estar, de tal sorte a não precisarmos reagir. Seriamos modelo de criaturas mimadas, indefesas, incapazes, ou simplesmente medrosas e comodistas? Desde logo, uma coisa é certa: quem teme a própria reação não é da paz e não a merece.
Quem a almeja, deve trabalhar por ela. Trabalho de reforma íntima, que exige disciplina, esforço no bem, elevação de sentimento, iluminação de raciocínio.
Observemos a recomendação de Jesus a seus discípulos ordenados a visitações e divulgação da Boa Nova: “E, se ali houver algum filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; e se não, ela voltará para vós.” (Lucas, 10:6), deixando claro que a paz é virtude personalíssima, passível de compartilhamento, em havendo receptividade e que, quando verdadeiramente entranhada, jamais se esvanece.
Tomemos tento, contudo, para a natureza dessa virtude qualificável como imperdível. A paz ora cogitada, não é aquela fugidiça, que se assusta diante de uma inofensiva carranca, nem a efêmera desfrutada pelos ímpios enquanto não alcançados pela Justiça. Cuidamos aqui da paz permanente, aquela capaz de desafiar situações adversas a qualquer tempo e local. Precisamente a deixada por Jesus, verdadeiro caminho para a luz, que em tudo difere da sensação de segurança e alívio que o mundo promete de acordo com as circunstâncias. É o que se depreende do texto evangélico: “A paz vos deixo, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá.” (João, 14-27).
A tranquilidade prometida é aquela adquirida através de atividade intensa e do enfrentamento de desafios ao longo da existência, a refletir o bem-estar resultante do cumprimento das obrigações que nos estão reservadas nesta jornada, consabido ser a Terra uma escola de trabalho incessante. Alcançado esse patamar de compreensão, “nenhuma situação externa lhe (discípulo fiel) modifica a serenidade interior, porque atingiu o luminoso caminho da tranquilidade fundamental”, assevera Emmanuel ([i]).
Contudo, não bastam esses comprometimentos para que a paz se instale na intimidade do Ser. É indispensável que ele se livre das chagas produzidas pela ira, revolta, mágoa, antipatia, adotando para isso o antídoto adequado denominado perdão, posto ser ele o “remédio santo para a euforia da mente na luta cotidiana”, lembrando que “todas as criaturas trazem consigo as imperfeições e fraquezas que lhe são peculiares, tanto quanto, ainda desajustados, trazemos também as nossas”. ([ii]) Aproveitamos a analogia criada pelo valioso Instrutor Espiritual aqui mencionado. Se em face de qualquer embaraço físico procuramos o medicamento certo para restaurar o órgão lesado de um corpo perecível, maior razão encontramos para nos livrarmos dos achaques do Espírito para neutralizar seus efeitos, sendo o perdão o remédio eficaz que liberta a mente do estorvo psíquico e abre ensanchas para a conquista do equilíbrio e da paz.
Ponto crucial da questão é saber como desfrutará deste estado beatífico o discípulo que carrega a consciência culpada em virtude de comportamento reconhecidamente infeliz. Certamente, o complexo de culpa constitui entrave para o conforto da alma, porque cria núcleos traumáticos sempre a incomodar com suas mensagens por meio de sonhos, visões, estados de angústia e inquietação. Mas isso não deve servir de obstáculo intransponível para a marcha em busca da felicidade.
O arrependimento sincero e a disposição para reparar o dano são os primeiros requisitos para o processo liberatório das inquietações. A ocupação da mente em leituras edificantes e o engajamento em obras destinadas ao bem neutralizam os efeitos da ideia fixa e impedem a auto-obsessão. O recurso da prece fortalece a fé quanto à solução da pendência de natureza moral. O mais, é trabalho árduo para seguir firme na resolução de não tornar a delinquir, sabendo que a solução de todas as coisas está nas mãos do Senhor, tanto que façamos a nossa parte. Readquirido o equilíbrio, a paz de Espírito é consequência.
Em resumo, a paz em Cristo não se conquista senão através de árduo trabalho de edificação interior, aperfeiçoamento e ascensão. A edificação se traduz pela estruturação e reforma constante da casa espiritual, da qual somos os únicos zeladores e responsáveis, compelidos a colher os efeitos das negligências e dos cuidados que lhe dedicamos. Casa mental repleta de fuligem revela administração ineficiente, a exigir intervenção dissolvente, mor das vezes ao preço de muita dor e arrependimento, estado de desassossego. Por isso, não devemos negligenciar os cuidados com a mente para que a paz possa se instalar definitivamente em nós.
Não obstante, é imperativo reconhecer que ainda não estamos preparados para viver a paz coletiva. Ela reinará no Planeta apenas quando seus habitantes se deixarem iluminar pela luz do Evangelho de Jesus, amando-se como verdadeiros irmãos em Cristo, sentimento que, em sendo verdadeiro, elimina o “egoísmo de cada um, que se corporifica na discórdia do lar, e se prolonga na intolerância da fé, na vaidade da inteligência e no orgulho das raças”.
Cabe-nos observar esses fenômenos e vencer os empeços morais, e enquanto a transformação se opera em nós e na Humanidade, certos de que a Suprema Inteligência a tudo provê, preparemo-nos para gozar os tempos de paz na morada íntima e no convívio planetário.
Marcus Vinicius
[i] Vinha de Luz – Francisco Cândido Xavier, pelo Espírito Emmanuel, cap. 155.
[ii] Palavras de vida eterna – idem, ibidem, cap. 61
