Mês passado, nosso jornal trouxe à luz um trecho da obra “Florações Evangélicas”, escrito pelo Espírito Joanna de Ângelis e psicografado por Divaldo Franco, intitulado “Investimentos” [1]. Com a lucidez que lhe é peculiar, a querida mentora nos convida a refletir acerca da forma como a sociedade contemporânea investe maciçamente em bens transitórios, na busca incessante por poder e segurança material, o que, muitas vezes, culmina em angústia e sofrimento. Ela alerta, ainda, para os interesses destituídos de valor real, a redução das aspirações da inteligência e a filosofia cínica que desvaloriza a moral. Em sua conclusão, Joanna de Ângelis oferece uma bússola segura para o verdadeiro progresso: o investimento no Espírito imortal.
No ambiente das casas espíritas, é comum que os frequentadores ouçam, em palestras e estudos, a ênfase na importância da evolução espiritual e as armadilhas de uma vida centrada nas aquisições materiais. Essa orientação fundamental para o desenvolvimento moral do Ser, por vezes, pode gerar uma impressão equivocada, como se o dinheiro e as atividades econômicas fossem intrinsecamente negativos ou devessem ser demonizados. No entanto, a Doutrina Espírita, em sua amplitude e racionalidade, oferece uma visão mais equilibrada sobre o tema, reconhecendo o papel essencial da moeda e dos empreendimentos para o desenvolvimento social e econômico da Humanidade.
É imperativo compreender que a produção de bens, o consumo e o comércio de produtos e serviços são pilares importantes para a evolução da Humanidade. A circulação de riquezas, quando pautada pela ética e responsabilidade, é não apenas necessária, mas desejável para o progresso coletivo. É por meio dela que se pode almejar a justa distribuição dos recursos, pavimentando o caminho para a tão sonhada justiça social. Sem a atividade econômica, a sociedade não poderia gerar os meios para sustentar a vida, promover a educação, a saúde, a cultura e a caridade, alicerces do progresso moral. O trabalho, em suas diversas formas, é uma lei divina, e a riqueza, em si, não é um mal, mas um instrumento poderoso que pode ser usado para o bem ou para o mal, dependendo da intenção e da conduta de quem a possui.
Allan Kardec, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, aborda essa questão com clareza no Capítulo XVI, intitulado “Não se pode servir a Deus e a Mamon”. Ele explica que a riqueza é uma prova, uma oportunidade de aprendizado e serviço. O apego a ela e o seu mau uso são os verdadeiros problemas, não a riqueza em si. O dinheiro, as empresas e a economia são ferramentas que a Providência Divina coloca à disposição do homem para seu progresso individual e coletivo. O que a Doutrina condena não é a posse, mas o egoísmo, a avareza, a exploração, a ostentação e a indiferença que muitas vezes acompanham a riqueza, desviando-a de seu propósito maior.
O leitor menos atento pode achar que a mensagem de Joanna de Ângelis é um convite à inação ou à rejeição ao mundo material, enquanto é, na verdade, uma convocação à reorientação de valores e à vivência integral do Evangelho. Ela não nos exorta a abandonar o “campo de trabalho” onde fomos convidados a operar, mas a lembrar dos “tesouros inesgotáveis da vida” e a aplicar “algum capital de horas, de valores monetários, morais, intelectuais e de saúde nos sublimes comércios com a Espiritualidade superior”. Isso significa que, enquanto nos dedicamos às nossas atividades profissionais e econômicas, devemos fazê-lo com um propósito maior, integrando a dimensão espiritual em cada ação, transformando o cotidiano em um altar de serviço.
Como conciliar, então, a inegável necessidade de produzir e fazer circular riquezas com o investimento no Espírito imortal?
Trabalho com propósito e ética: os negócios devem ser veículos de serviço e progresso. Quando geridos com ética, responsabilidade social e ambiental, e com o objetivo de gerar valor para todos os envolvidos – colaboradores, clientes, fornecedores e a comunidade –, tornam-se instrumentos de elevação. O lucro, nesse contexto, além de ser um meio para a continuidade e expansão do bem, é a justa remuneração pelo trabalho e pelo risco, e não um fim em si mesmo.
Uso consciente e fraterno da riqueza: o capital monetário, em vez de ser acumulado egoisticamente, pode ser direcionado para investimentos que promovam o bem-estar coletivo, a inovação que beneficia a Humanidade, a criação de empregos dignos e o apoio a causas sociais e caritativas. A prática da caridade material, quando acompanhada da caridade moral (benevolência, indulgência, perdão), adquire seu pleno sentido e se eleva à condição de amor ao próximo.
Valores morais nos negócios: a honestidade, a transparência, a justiça e o respeito devem permear todas as relações comerciais e empresariais. A busca pelo lucro não pode justificar a desonestidade, a exploração do semelhante ou a negligência com o próximo e com o planeta. É a aplicação dos princípios evangélicos no cotidiano dos negócios, transformando o ambiente de trabalho em um campo de aprendizado, evolução e serviço mútuo.
Investimento intelectual e de saúde: a inteligência e a saúde são capitais preciosos que nos foram confiados. Utilizar a inteligência para desenvolver soluções que melhorem a vida das pessoas, para inovar de forma sustentável e para disseminar conhecimento útil é um investimento no Espírito. Cuidar da saúde, por sua vez, permite que tenhamos a energia e a disposição necessárias para o trabalho no bem.
A “vertical das conquistas superiores” de que fala Joanna de Ângelis não se opõe à “horizontalidade” da vida material, mas a transcende e a enobrece. O progresso material, quando desacompanhado do moral, leva à desordem, ao desequilíbrio e ao sofrimento. Contudo, o progresso moral não se faz no isolamento, mas na interação com o mundo, utilizando os recursos materiais como meios para alcançar fins mais elevados. A distribuição de riquezas, por exemplo, não se concretiza apenas pela doação, mas pela criação de oportunidades, pela geração de valor e pela circulação justa dos bens e serviços.
A parábola dos talentos, presente nos Evangelhos (Mateus 25:14-30), ilustra bem essa ideia: não se trata de desprezar os recursos que nos são confiados, mas de fazê-los frutificar, multiplicá-los em benefício de todos. O servo que enterra seu talento por medo é repreendido. Da mesma forma, a riqueza e as capacidades produtivas, quando “enterradas” na inação ou mal utilizadas no egoísmo, representam uma oportunidade perdida de serviço e progresso.
Em última análise, a “prestação de contas” a que Joanna de Ângelis se refere não avaliará a quantidade de bens acumulados, mas a forma como esses bens foram adquiridos e, principalmente, como foram utilizados. Os “investimentos imediatos”, puramente materiais e egoístas, “ficarão retidos nas aduanas da Terra” porque não possuem valor intrínseco para o Espírito. Já os “investimentos da vida abundante” – aqueles que combinam o trabalho digno, a geração de valor, a circulação ética de riquezas e a caridade com o cultivo das virtudes e o serviço ao próximo – esses, sim, seguirão conosco “por todo o sempre”, constituindo os verdadeiros tesouros da alma.
A Doutrina Espírita, portanto, não demoniza o dinheiro ou as empresas; ao contrário, ela nos convida a uma relação consciente e responsável com eles. São instrumentos de progresso, provas e oportunidades benditas de serviço. O verdadeiro desafio é utilizá-los de forma a promover a evolução espiritual individual e coletiva, transformando a “correria da ambição” em uma jornada de serviço e amor, onde o material se torna um degrau para o espiritual.
Lila
[1] ÂNGELIS, Joanna de (Espírito); FRANCO, Divaldo P. (Médium). Florações Evangélicas. Capítulo 6 – Investimentos.
