Quando o assunto é traição, é muito comum nos lembrarmos das ações de Judas Iscariotes, que “teria vendido Jesus por 30 moedas”. Foi nisso que acreditamos por muito tempo, ao longo da jornada cristã, propagada por todas as religiões que afirmam inspirar-se no Cristo. E foi graças à Doutrina Espírita que pudemos conferir o que de fato ocorreu, trazendo luz a trechos trevosos de desconhecimento cristão.
Um dia antes da prisão de Jesus, Judas teria comentado com Tiago[1] que seu plano buscava apressar o triunfo de Jesus como líder político, pois entendia que apenas Ele seria capaz de liderar uma grande revolução. Tanto que, ao receber as 30 moedas do Sinédrio, tentou devolvê-las e, percebendo que sua intenção havia sido revertida para a traição de Jesus, foi acometido de grande remorso e atentou contra a própria vida.
Esta passagem também nos mostra a reação de Jesus: após a morte física, Ele desce até o calvário dos suicidas, atrás de Judas, compadecido pelo arrependimento do grande amigo; permanece ao seu lado por três dias, até que o Espírito ensandecido de Judas finalmente adormeça. Essa revelação é feita por Jesus a Maria Madalena, reiterando que precisou consolar o amigo antes mesmo de se dirigir ao Pai. Essa revelação é encontrada nos versos da poetisa Maria Dolores, no livro Coração e Vida[2], pondo fim a um mal-entendido sobre traição e mostrando a infindável capacidade de perdão de Jesus.
A grande amizade entre Judas e Jesus deixa claro que mesmo um amor genuíno como o deles não estaria a salvo de mal-entendidos. O mesmo cabe a Pedro, que teria “negado Jesus” três vezes antes do amanhecer (o canto do galo), pois foi quando o Apóstolo, misturado à multidão, foi identificado como seguidor do Mestre, Pedro temeu pela própria vida e negou segui-Lo, por três vezes.
Os exemplos pretéritos de traição narrados no Evangelho de Jesus nos mostram, em oposição, o infinito amor do Cristo ao próximo e seu propósito de perdoar setenta vezes sete. Deduz-se, também, que diante da incapacidade de seguirmos Seu ideal, Cristo jamais desiste das ovelhas desgarradas. Como um pai que alerta a criança para o risco iminente de queda, jamais desiste de enxugar suas lágrimas e curar suas feridas.
Assim é Jesus. Inspirado por nosso Pai, mostrou que o amor e a caridade conduzem ao melhor caminho. Que o arrependimento é o primeiro passo para o acerto de cada jornada, mas que devemos insistir no rumo. Que o traidor será merecedor do perdão, mesmo que o arrependimento de seus atos seja tardio, pois a prestação de contas não é senão um ato de si mesmo, no Plano Espiritual, e não uma condenação divina.
A traição vista como ato isolado, mas talvez de forma inconsciente – como ocorreu a Judas – é menos grave do que aquela executada de forma premeditada, quando o traidor conhece a prática do bem, mas opta pelo comportamento contrário. É sabido que a grande dificuldade para executar o que é certo está nos sinais tentadores que nos colocam para a ultrapassagem desse limite.
Quando não combatemos os instintos materiais, como a inveja, a soberba, a intolerância, o desamor, a guerra, a ganância, o preconceito de todo tipo e a arrogância, assumimos o papel de traidores de Jesus. E quando nos afastamos de Seu caminho, cegamos nossa capacidade de cumprir nossa prática de amor e da caridade ao próximo. Vestimos a indumentária dos que falham aos olhos de Deus, dos que traem Seus ensinamentos e dos que traem a si próprios. Vencer nossas adversidades interiores e maus pensamentos é ato complexo porque ainda nos esbaldamos na materialidade humana. Mas é justamente por esta oportunidade na Terra que devemos insistir, pois ao trairmos nossa origem, estaremos postergando mais uma oportunidade para nossa evolução.
Vanda
[1] Diálogo apresentado no capítulo “A Ilusão do Discípulo”, no livro Boa Nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografado por Francisco Xavier.
[2] A narrativa ocorre no poema Amor e Perdão, pelo Espírito Maria Dolores, no livro psicografado por Francisco Xavier.
