“Não faças tu comum, o que Deus purificou”- Atos, 10:15
O Evangelho do Cristo Jesus contém tesouros valiosos que ainda não assimilamos em sua totalidade, porque necessitamos de maior capacitação para perceber as lições preciosas que se acham embutidas nas expressões mais simples.
Para compreender a lição contida em Atos, 10:15 “Não faças tu comum o que Deus purificou, recordemos o globo terráqueo nos seus primeiros dias.
Que força sobre-humana pôde manter o equilíbrio da nebulosa terrestre, destacada do núcleo central do sistema, conferindo-lhe um conjunto de leis matemáticas, dentro das quais se iam manifestar todos os fenômenos inteligentes e harmônicos de sua vida, por milênios de milênios?
Imaginemos sua composição nos primeiros tempos de existência como planeta: laboratório de matérias ignescentes, onde o conflito das suas energias físico-químicas opera as construções do teatro da vida. Nesse imenso cadinho onde a temperatura se eleva, por vezes, a 2000 graus de calor, a matéria é submetida aos mais diversos ensaios, para examinar-se a sua qualidade e possibilidades na edificação da nova escola dos Seres.
O frio dos espaços atua, porém, sobre esse laboratório de energias incandescentes e a condensação dos metais verifica-se com a leve formação da crosta solidificada.
É o primeiro descanso das tumultuosas comoções geológicas do globo.
Formam-se os primitivos oceanos onde a água tépida sofre pressão difícil de descrever-se.
A atmosfera está carregada de vapores aquosos e as grandes tempestades varrem, em todas as direções, a superfície do planeta, mas sobre a Terra o caos fica dominado como por encanto. As paisagens aclaram-se, fixando a luz solar que se projeta nesse novo teatro de evolução e vida.
As mãos de Jesus haviam descansado, após o longo período de confusão dos elementos físicos da organização planetária.
A Ciência do mundo não lhe viu as mãos augustas e sábias na intimidade das energias que vitalizam o organismo do Globo. Substituíram-lhe a providência com a palavra “Natureza”, em todos os seus estudos e análises da existência.
Quando serenaram os elementos do mundo nascente, Jesus reuniu nas Alturas os intérpretes divinos do Seu pensamento e viu-se, então, descer sobre a Terra, uma nuvem de forças cósmicas que envolveu o imenso laboratório planetário em repouso.
Daí a algum tempo, na crosta solidificada do planeta, como no fundo dos oceanos, podia-se observar a existência de um elemento viscoso que cobria toda a Terra.
Estavam dados os primeiros passos no caminho da vida organizada. Com essa massa gelatinosa, nascia no orbe o protoplasma e, com ele, lançara Jesus à superfície do mundo o germe sagrado dos primeiros homens.
Leitor amigo, vimos num breve relato, o surgimento da Terra e os fenômenos que lhe caracterizaram os primeiros momentos, estando Jesus à frente desse processo. O que nos parece simples relatar em rápidas linhas, despendeu milênios na sua concretização.
Corroborando essa tese, há uma passagem evangélica que nos leva a refletir sobre nossa pouca maturidade para entender a grandeza da obra Divina. E segundo essa pouca ciência das coisas, nos arvoramos em sábios e doutores a discorrer sobre fatos que escapam ao nosso entendimento ainda precário de tudo que nos cerca.
O nobre instrutor espiritual Emmanuel, no texto intitulado “Ante o Sublime”, na obra Fonte Viva, escreve pelas mãos do médium Francisco C. Xavier, uma ocorrência vivenciada por Pedro quando se achava hospedado em casa de um curtidor de nome Simão. Estava o apóstolo, com fome, e enquanto lhe preparavam uma refeição, subiu ele ao terraço da casa, localizado no pavimento superior, e ali pôs-se a orar e meditar. Eis que nesse instante, entra em êxtase, e vê descer do Céu um objeto como se fora uma grande toalha, a qual era baixada à Terra pelas quatro pontas, e sobre ela havia animais da Terra e aves do Céu. Uma voz celeste disse-lhe para que se alimentasse desses animais. Mas Pedro respondeu que de nenhum modo faria isso, porque jamais havia comido alguma coisa impura e imunda. A voz lhe falou então: “Ao que Deus purificou não faças tu impuro”. Logo em seguida o objeto foi recolhido ao Céu – (Atos X, 15).
Esse quadro alegórico, carregado de expressiva simbologia, era uma advertência ao apóstolo sobre a questão da “pureza e impureza”, conceitos fortemente impregnados na cultura hebraica e que eram rígidamente observados pelo povo. Sob o efeito de uma visão distorcida, julgavam e rotulavam pessoas, acontecimentos, circunstâncias, numa análise deturpada pela ignorância e pelo falso conceito da Verdade. Definiam tudo que viam segundo os critérios superficiais do seu intelecto carente de aprofundamento.
Leciona, então Emmanuel, aclarando-nos o entendimento:
“A voz celeste, que se dirige a Simão Pedro, nos Atos, abrange horizontes muito mais vastos que o problema individual do apóstolo.
O homem comum está rodeado de glórias na Terra, entretanto, considera-se num campo de vulgaridades, incapaz de valorizar as riquezas que o cercam.
Cego diante do espetáculo soberbo da vida que lhe emoldura o desenvolvimento, tripudia sobre as preciosidades do mundo, sem meditar no paciente esforço dos séculos que a Sabedoria infinita utilizou no aperfeiçoamento e na seleção dos valores que o rodeiam.
Quantos milênios terá exigido a formação da rocha?
Quantos ingredientes se harmonizam na elaboração de um simples raio de sol?
Quantos óbices foram vencidos para que a flor se materializasse?
Quanto esforço custou a domesticação das árvores e dos animais?
Quantos séculos terá empregado a Paciência do Céu na estruturação complexa da máquina orgânica em que o Espírito encarnado se manifesta?
A razão é luz gradativa, diante do sublime.
Não te esqueças, meu irmão, de que o Senhor te situou a experiência terrestre num verdadeiro paraíso, onde a semente minúscula retribui na média do infinito por um e onde águas e flores, solo e atmosfera te convidam a produzir, em favor da multiplicação dos tesouros eternos.
Cada dia, louva o Senhor que te agraciou com as oportuidades valiosas e com os dons divinos…
Pensa, estuda, trabalha e serve.
Não suponhas comum o que Deus purificou e engrandeceu.”
Cultura intelectual e aprimoramento moral são imperativos da vida, possibilitando-nos a manifestação do amor, no império da sublimação que nos aproxima de Deus.
Yvone
Fontes consultadas:
– A Caminho da Luz – Emmanuel / F.C.Xavier – cap. 1 – A Gênese Planetária
– Fonte Viva – Emmanuel / F.C.Xavier – cap. 23 – Ante o Sublime
