Para introduzir o tema-título deste texto, vamos começar pela morfologia da palavra reencarnar: carnar (unir pela carne) é associada aos prefixos re (repetição: rever = ver novamente; recarregar = carregar novamente) e en (introduzir ou mudar de estado: enriquecer = ficar rico). O radical carnar significa unir pela carne. Assim, reencarnar significa encarnar novamente através de uma nova matéria (corpo). Em geral, há quem acredite, mas tenha dúvidas quanto ao termo em si, que, aliás, não é prerrogativa do Espiritismo.
Na verdade, sua origem é bem anterior. Os hinduístas já se referiam à necessidade da alma (atman) passar por vários nascimentos e mortes até atingir o moksha (libertação impulsionada por ações, ou karma) de vidas passadas. No Budismo, a alma não é eterna, mas um fluxo de consciência condicionado pelo Karma até atingir o nirvana, que encerra esse ciclo de reencarnações. O Cristianismo acena que a vida após a morte seria determinada por uma espécie de antecipação do juízo final (ao morrer, a sua jornada na Terra indicará para qual lugar irá, ficando nele para sempre). O Islamismo não reconhece a reencarnação, mas a vida após a morte através da ressurreição física. O Judaísmo acredita na reencarnação, mas não há nada de concreto quanto a isso: apenas que algumas correntes internas se diferenciam quanto ao “fim” dessa jornada.
A era mosaica já indicava essa “renovação” de vidas. No Antigo Testamento, o profeta Malaquias previu a reencarnação de Elias (Ml, 3:1), que teria a missão de preparar a vinda do novo Cristo. De fato, João Batista foi o antecessor de Jesus. O Nazareno, por sua vez, fez citações diversas da reencarnação, a começar pela citação da palligenesíai (nova gênese) no livro de Mateus (19:28). Em João, Jesus afirma: “…aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus” (João, 3:3-4). Por isso, nada mais natural que o termo integrasse a Bíblia Sagrada…
A reencarnação só não permaneceu nas Escrituras porque, em 553, durante o Concílio Ecumênico de Constantinopla, o imperador Justiniano decidiu acatar o pedido de sua rainha, Teodora. É que ela temia as consequências de seus atos (com punição em vidas futuras) e entendeu que eliminar o termo em definitivo seria uma forma de evitar que seus delitos fossem cobrados.
O que trouxe o tema de volta foi a Doutrina Espírita. O professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, deu início às pesquisas sobre manifestações físicas (mesas girantes) e comunicações entre vivos e mortos. Para isso, reuniu-se com médiuns de diversos locais ao longo de 20 meses de modo a coletar respostas a 501 perguntas previamente formuladas, dando origem à publicação de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857 (hoje, a publicação reúne um total de 1019 questões).
Foi por meio desse trabalho que o autor descobriu ter sido um druída em outra existência, chamado Allan Kardec. Por isso, optou por usar essa assinatura nesse e nos demais livros que integram a Codificação: O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868).
Kardec fez mais que reintroduzir o termo ao cotidiano: trouxe à luz uma nova proposta de fé raciocinada, baseada no Evangelho de Jesus, sustentada sobre cinco pilares: a existência de Deus (um comandante Supremo), a imortalidade da alma (o Espírito é imortal, apenas a matéria se vai), a reencarnação (nosso Espírito volta à Terra, utilizando-se de outro corpo, para aprimorar seu aprendizado), a pluralidade dos mundos (“Na casa de meu Pai há muitas moradas” João 14:2) e a comunicação com os Espíritos (através da mediunidade dos que se encontram encarnados). Destes cinco pilares, a reencarnação viabiliza as referências pregressas dos possíveis experimentos do homem em busca de sua perfeição.
Embora a Doutrina Espírita não estimule o tema em relação a grandes exemplos reencarnatórios – principalmente para evitar que o Espírito encarnado se submeta a falsos profetas –, há alguns registros nesse sentido. Judas Iscariotes (que tirou a própria vida por arrependimento de sua conduta junto a Jesus) retornou ao planeta como Joana D’Arc, segundo o livro Crônicas de Além-Túmulo, psicografado por Francisco Xavier. A publicação afirma que o apóstolo foi entrevistado pelo Espírito Humberto de Campos.
Outro exemplo bastante falado foi de Santos Dumont, que cometeu suicídio após constatar o fim bélico dado aos seus aviões. O médium Chico Xavier confirmou que o Pai da Aviação reencarnou na cidade de Campos, em 1956, com o nome de Carlos Vitor. Aos nove meses, sofreu uma queda que o deixou tetraplégico, vindo a falecer aos 17 anos. A curta jornada seria necessária para cumprir seu tempo restante. Dumont teria sido também Marco Polo (1254-1324), Cristóvão Colombo (1451-1506), Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) e Joseph-Michel Montgolfier (1740-1810). Em todos eles, uma trajetória comum: a pesquisa para encurtar distâncias entre os povos.
No século atual, há registros de pessoas que “se lembram” de vidas passadas, geralmente na tenra infância. Na Índia, Shanti Devi (1926-1987) afirmou ser a reencarnação de Lugdi Devi. Uma comissão formada por Mahatma Gandhi concluiu que os detalhes fornecidos pela menina condiziam com a vida dessa mulher, que morreu durante o parto, nove anos antes do nascimento de Shanti.
A pequena Lily, nascida na Pensilvânia (EUA) em 1943, começou a citar palavras (e, depois, frases inteiras) em um idioma desconhecido (mais tarde, especialistas identificaram tratar-se do espanhol praticado no século anterior). A família concordou em conduzir a filha até o vilarejo onde ela dizia ter nascido, e Lily não só mostrou-se familiarizada com as ruas e a casa, como, ao chegar, dirigiu-se a uma parede; afastou um tijolo dela e tirou do esconderijo uma boneca. Só então a senhora que os atendeu percebeu que somente sua irmãzinha, já falecida, seria capaz de saber sobre o brinquedo. Após essa visita, Lily nunca mais falou em outro idioma.
Embora o oblívio (esquecimento das vidas passadas ao reencarnar) seja necessário para não prejudicar a execução dos ajustes da vida atual, em alguns casos o Espírito traz essa lembrança, na maioria das vezes apenas numa etapa da infância. Talvez, a “missão” seja a de provar a vida passada. O fato é que as sucessivas encarnações não se restringem a pessoas que desencarnaram na Terra. Em algumas situações, legiões de Espíritos são conduzidos para mundos que deles necessitam (seja pela tecnologia, seja pela evolução moral).
O próprio Kardec teria sido Amenophis (sacerdote egípcio), Platão (filósofo grego) e Jan Hus (reformador religioso tcheco). A reencarnação tem, portanto, papel fundamental na evolução dos Espíritos, cabendo a cada um de nós aproveitar nosso período terrestre para avançar em sua evolução. A regra valiosa não é descobrir quem fomos, mas trabalhar incansavelmente para nos tornarmos pessoas melhores, aplicando a regra da caridade como caminho para a evolução!
Vanda
