Meu irmão Eduardo e eu costumávamos discutir com azedume.
E cada um de nós, invariavelmente, acusava o outro de estar inteiramente errado.
Um dia, o nosso pai, ouvindo os nossos berros, durante uma dessas brigas, veio falar conosco. Nós nos calamos ao vê-lo aproximar-se. Ao invés de nos repreender, ele, em seu tom habitual de voz, nos disse apenas o seguinte:
Por favor, filhos, vocês poderiam acompanhar-me no escritório?
Tomou a dianteira. Meu irmão e eu o seguimos emburrados, sem olharmos um para o rosto do outro.
Papai entrou no escritório, fechou a porta e colocou duas cadeiras em uma das mesas.
─ Por favor ─ tornou ele a pedir ─, sentem-se.
Era impossível adivinhar o que ele estava pretendendo, porém a disposição das cadeiras, para nós, não poderia ter sido pior: estávamos obrigados a nos manter, sem apelação, um em face do outro.
Mas havia um recurso e nos valemos dele. Ficamos olhando para o tampo da mesa, embora à espreita de todos os movimentos de nosso pai.
Com seu modo tranquilo, ele apanhou um bonito vaso vermelho, decorado, em um dos lados, com uma rosa branca.
Veio e colocou-o bem no centro da mesa.
Voltando-se então para Eduardo, perguntou-lhe:
─ Filho, o que é que você está vendo?
─ Estou vendo um vaso vermelho! ─ disse meu irmão, já deixando revelar na voz, a sua curiosidade.
Foi a minha vez:
─ E você, filho, o que vê?
Não tive um momento de hesitação e respondi:
─ Um vaso vermelho com uma rosa branca.
─ Excelente! ─ disse meu pai. ─ Era exatamente isso que eu queria saber.
E não disse mais nada. Abrindo a porta do escritório, saiu.
Eu e meu irmão nos fitamos firmemente nos olhos. A lição era demasiado clara.
E ainda hoje, tal como acontece com meu irmão, quando uma discussão com outras pessoas ameaça se degenerar em conflitos infrutíferos, nós nos lembramos do jarro vermelho.
Aquele episódio instalara definitivamente em nossas mentes que… tudo é uma questão de ponto de vista!
Wallace Leal V. Rodrigues
Jovem leitor
Quantas vezes perdemos um tempo enorme em discussões a respeito de uma questão, querendo provar que temos razão, que a verdade é nossa… E não conseguimos, porque o outro, por sua vez, também faz o mesmo, achando que ele é que está certo.
Entretanto, nada disso precisaria acontecer se soubéssemos respeitar o “ponto de vista” do outro, como gostaríamos de ver respeitado o nosso.
Você sabe o que é “ponto de vista”?
É a maneira como uma pessoa observa ou interpreta determinada situação, ideia ou acontecimento.
Isso varia conforme o observador e o “lugar” de onde vê.
Por exemplo, um número pode ser 6 ou 9, dependendo da posição em que se encontram os observadores.
O pai dos garotos da história deixou claro para os filhos, o significado de “ponto de vista”, da seguinte forma:
Colocando as crianças em lados opostos, pôs entre elas, um vaso; e fez aos filhos a mesma pergunta: o que estavam vendo.
Eduardo estava sentado na posição (ponto de vista) em que o vaso só lhe deixava ver sua coloração vermelha.
Seu irmão, entretanto, estava posicionado no lugar (ponto de vista) em que o vaso lhe permitia ver sua coloração vermelha com uma rosa branca.
Então, meus queridos leitores, podemos perceber que o vaso era o mesmo, mas, dependendo do lugar onde as crianças estavam posicionadas, elas o viam de forma diferente.
Conclusão: ninguém estava errado; bastaria que se entendessem sobre a diferença no modo como viam o vaso…
Muitas pessoas, entretanto, são capazes de terminar uma amizade ou partirem para uma agressão, por não entenderem esse princípio. Você é uma delas? Espero que não.
