Imaginemos que mesmo com os conhecimentos adquiridos ao longo de nossas diversas encarnações em um planeta distante, fossemos obrigados a imigrar para um outro mundo, de ordem evolucional inferior àquele que habitávamos, em razão do nosso nível moral inferior. E após todos os preparativos necessários ao processo imigratório (psíquico, perispiritual etc), reencarnássemos há milhares de anos entre as criaturas locais desse verdadeiro “planeta-exílio” que conheceríamos com o nome de Terra.

Muitas seriam as nossas sensações no convívio com os nossos novos irmãos de aprendizagem: a melancolia, sentida por força do sentimento inconsciente da perda do verdadeiro paraíso em que vivíamos, comparado ao novo habitat, a repulsa inicial em relação aos nossos novos companheiros de encarnação face ao sentimento estético adquirido com criaturas de formas mais harmônicas, assim como a certeza da nossa superioridade de conhecimentos em comparação com nossos irmãos “locais”.

Seríamos obrigados a conviver com os povos originários desse planeta e por força da nossa inteligência, da nossa capacidade de raciocinar abstratamente e de toda a nossa experiência arquivada nos registros da memória profunda, mesmo que oculta pelo véu poroso do esquecimento, acabaríamos por indicar-lhes os caminhos do conhecimento e do progresso material, no qual já havíamos caminhado e tropeçado diversas vezes no passado remoto. Então, cada iniciativa, cada projeto que executássemos seriam considerados extraordinários pelos “locais”, que nos tomariam à conta de verdadeiros “deuses”, chegando mesmo a cultuar a nossa existência.

E exatamente por conhecermos leis que ainda eram ignoradas por nossos parceiros intelectualmente mais embrutecidos, acabaríamos por liderá-los rumo à civilização e às conquistas do porvir.

Porém, apesar dos conhecimentos intelectuais superiores aos dos “locais”, ainda manteríamos o ranço e a deformação de nossas personalidades, principalmente o orgulho e o egoísmo, representados pela busca e manutenção do poder transitório que nos fez “perder o paraíso”.

Então, instituiríamos sociedades religiosas que abrigariam criaturas a que poderíamos denominar, iniciados na arte de produzir o admirável, o sobrenatural, o milagre. Seriam alguns poucos “eleitos” treinados nas práticas da cura, da comunicação com os “mortos” e de determinados fenômenos físicos tidos por extraordinários. Tudo ocorreria “à boca pequena” e sob os véus dos mistérios. E a todo resto dos “locais”, daríamos conhecimentos rasos, ensinaríamos crendices e rituais, estimularíamos a veneração de mitos capazes de feitos heroicos, visando manipulá-los e mantê-los sob o nosso absoluto controle.

Seríamos os representantes da verdade-maquiada neste vale de lágrimas, e como tal, prometeríamos mitigar dores, evitar desgraças e “levantar mortos” enquanto campeasse a ignorância cega.

Passado o tempo outros “iniciados” viriam das partes mais distantes do planeta, buscando conhecer os mistérios do invisível e deles se tornarem divulgadores, obviamente com a nossa régia e fundamental concordância.

Um dia, porém, alguns de nós despertariam do torpor ético, valorizariam a experiência do exílio e da dor no planeta rude, agindo, enfim, para promover o progresso moral dos irmãos embrutecidos de forma caridosa e desinteressada, e assim procedendo legitimariam o retorno ao paraíso de luz, ao planeta do qual teriam sido retirados sob o fórceps da Lei.

Antes do retorno glorioso, cheios de júbilo e de agradecimentos a Deus, legariam aos remanescentes a responsabilidade pela continuidade da obra de evolução da qual teriam sido os principais artífices.

E quando deixassem o planeta de tons azuis inebriantes, envolvidos na atmosfera de amor que teriam aprendido a cultivar, mesmo em meio àquele ambiente embrutecido, elevariam prece sentida a Deus rogando amparo ao destino dos irmãos menores que estariam por sua própria conta, assim como aos companheiros imigrantes que, ainda persistentes no erro, ficaríamos no planeta embrutecido onde continuaríamos os serviços de adestramento e qualificação dos nossos sentimentos.

E assim teria seguido o tempo em que os imigrantes retardatários e os “locais” mais aprimorados na inteligência seríamos os responsáveis pela acanhada evolução vivenciada no planeta.

Deus, sempre atento à sua criação e visando apertar o passo do progresso, que é naturalmente lento entre os embrutecidos, encaminhou em diversas épocas para o “mundo azul” uma série de Espíritos elevados, encarregando o maior e o único puro dentre eles, a ensinar a docilidade, a candura, a compaixão e o amor àqueles corações empedernidos.

E então o Consagrado, o Ungido ou o Cristo passou a indicar o caminho da libertação para os “locais” e para os imigrantes que ainda aqui remanesciam, vivendo na prática do dia a dia as lições candentes do Verbo de que era emissário. E repetindo os primeiros imigrantes, curou os doentes e amparou os “mortos”, advertindo aos seus seguidores que no tempo oportuno encaminharia o Consolador Prometido para esclarecer os prodígios que praticava. Ao desaparecer, tão subitamente quanto chegou, não tardou para que imigrantes e “locais” nos uníssemos em consórcio para empunharmos um estandarte distorcido do legado cristão. Por mais uma vez fundaríamos sociedades religiosas de objetivos semelhantes àquelas inauguradas pelos primeiros imigrantes, cujo objetivo principal seria a detenção do poder transitório na Terra. E em nome dele, dizimaríamos vidas, sonhos e crenças, agindo em claro desapreço ao conhecimento que teríamos sido convidados a relembrar com o mesmo Cristo, mas desta feita em um outro planeta.

Mas a trombeta do progresso teria ressoado para todos os imigrantes que aqui ainda remanesciam, dos mais aos menos esclarecidos, convocando-os a se tornarem partícipes do Paráclito a que se referiu o Cristo, o Consolador Prometido que viria esclarecer as causas das dores, a interação do mundo visível com o invisível, os fatos decorrentes da manipulação dos fluidos e a essencialidade do amor-movimento que tudo regenera e faz vicejar.

Os imigrantes mais evoluídos, amparados por emissários das esferas superiores, se responsabilizariam pelo planejamento do projeto e a instituição da obra nova, consolidadora de fatos tão antigos quanto a própria existência do Ser humano.

Aos imigrantes menos evoluídos, por sua vez, caberia a divulgação das bases e diretrizes da ação consoladora, através da instituição de pequenas células voltadas aos estudos e doações energéticas, visando a multiplicação do conhecimento e da ação benfazeja, sobretudo entre os imigrantes encarnados e desencarnados. Isto porque seriam os mais preparados, sob a ótica da maturidade espiritual, para receber e vivenciar a nova filosofia, considerando que esse conhecimento já existia na memória remota de todos, desde a “perda do paraíso”.

Nessa hipótese, uma boa parte dos espíritas seríamos os imigrantes que aqui aportaram em épocas distintas, tencionando redimir os nossos equívocos milenares e ao mesmo tempo tocar os corações dos “locais” mais sensíveis às verdades espirituais. E essa tarefa se reveste de profunda e emergencial importância nos dias em que vivemos, porque observamos o mesmo movimento de que teríamos sido testemunhas vivas em nosso passado remoto. Grupos cada vez mais numerosos de “locais” são formados com objetivos imigratórios. Milhões, talvez bilhões de criaturas são cadastradas para a grande viagem sem passagem marcada de retorno, enquanto a atmosfera sufocante desses atos preparatórios nos sufoca, fazendo-nos reviver a angústia profunda que experimentamos quando, em tempos longínquos, teríamos sido nós mesmos os cadastrados para a difícil expedição.

Por isso é preciso que gritemos o grito surdo de alerta sobre a gravidade do momento, que pintemos placas indicativas com cores fortes e que apontemos aos que nos observam o caminho contrário a esse porto de embarque, solidários na dor que um dia talvez tenhamos sentido, mesmo que admitamos essa nossa experiência íntima apenas como uma hipótese.

Cleyton

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