Hipocrisia é o ato de fingir ou de dissimular os verdadeiros sentimentos e intenções; reside na dissonância entre o que se professa e o que se pratica; é a “máscara social” que o indivíduo utiliza para apresentar-se ao mundo de uma forma que não corresponde à sua realidade interior. Além de ser uma falha moral, apresenta-se como grave entrave ao progresso espiritual da criatura.
A hipocrisia está profundamente enraizada no orgulho e no egoísmo, as duas grandes chagas morais da Humanidade[1]. O orgulho leva o indivíduo a desejar ser visto como melhor do que é, a buscar a admiração e o louvor dos homens. Ele se manifesta na vaidade, na ostentação de uma falsa piedade, na preocupação excessiva com a imagem externa. O hipócrita não age por amor ao bem, mas por amor a si mesmo, buscando reconhecimento e vantagens pessoais. O egoísmo, por sua vez, impulsiona o hipócrita a agir em benefício próprio, mesmo que para isso precise enganar ou manipular os outros. Ele pode simular caridade para obter prestígio, ou fingir devoção para alcançar posições de poder.
No contexto do Evangelho, Jesus foi um crítico veemente dos hipócritas de seu tempo, especialmente dos fariseus[2], que se atinham mais às aparências e à observância externa da Lei do que à pureza de coração e à prática da verdadeira caridade: “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, pois gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens” (Mateus 6:5). Alertou, ainda: “Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles” (Mateus 6:1). Essas palavras revelam a importância da intenção por trás de cada ato. Não é o ato em si que tem valor absoluto, mas a motivação que o impulsiona. Uma esmola dada para ser vista, uma oração feita para impressionar, uma virtude exibida para obter aplausos, tudo isso carece de mérito espiritual.
Sabemos que a vida é uma escola de aprimoramento moral. Cada encarnação é uma oportunidade de corrigir imperfeições e desenvolver virtudes. A hipocrisia paralisa esse processo. Ao invés de enfrentar suas fraquezas e trabalhar para superá-las, o hipócrita as esconde sob o véu de falsidade. Ao criar e sustentar uma imagem artificial de si, o indivíduo precisa dedicar imensa monta de energia para manter a farsa. Essa energia, que poderia ser canalizada para o autoconhecimento e o desenvolvimento de virtudes reais, é desperdiçada na manutenção de uma ilusão e se torna um entrave à evolução espiritual.
As consequências da hipocrisia transcendem o âmbito individual e podem gerar impactos sociais relevantes. A farsa mantida pelo hipócrita constrói um tecido de meias-verdades e ilusões que distorcem a realidade, enganando aqueles que o cercam, minando a base da convivência nos domínios pessoais. Com maior gravidade, em tempos em que as mensagens se propagam com velocidade vertiginosa e sem filtro, essa teia de enganos tem potencial para originar uma reação em cadeia de desconfiança, gerando conflitos, polarizando a sociedade e atravancando o desenvolvimento coletivo. Ao analisarmos o passado da Humanidade, percebemos que grandes tragédias foram urdidas a partir de manobras que se valeram de falsas aparências e acusações infundadas como, por exemplo, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, pela ascensão de Adolf Hitler[3], e a própria crucificação de Jesus, dois eventos que foram resultados de um complexo jogo de interesses e hipocrisia que manipularam a percepção da verdade.
Os efeitos da hipocrisia também ultrapassam o plano material. Em obras psicografadas por Chico Xavier[4], o Espírito André Luiz descreve a angústia e o sofrimento dos desencarnados que viveram na hipocrisia. No plano espiritual, eles se veem desnudados, sem as aparências que os sustentavam na Terra, e muitas vezes são assediados por obsessores atraídos por sua duplicidade. A lei de causa e efeito atua implacavelmente, e a colheita é proporcional à semeadura.
É certo que a hipocrisia cria uma barreira entre o indivíduo e os Espíritos mais bem qualificados. A sinceridade, a humildade e a pureza de intenções são qualidades que atraem as boas influências espirituais. O hipócrita inadvertidamente repele essa assistência Divina e se torna vulnerável às influências inferiores que se comprazem na falsidade e na ilusão.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII – Bem-aventurados os puros de coração, Kardec nos lembra que a pureza de coração é inseparável da simplicidade e da humildade. O hipócrita, ao contrário, é complexo em suas intenções e orgulhoso em suas pretensões. Ele constrói uma fachada, um personagem, para enganar a si mesmo e aos outros, afastando-se da simplicidade que caracteriza as almas verdadeiramente elevadas.
O caminho para superar a hipocrisia passa, necessariamente, pela autoconsciência e pela humildade[5]. É preciso ter a coragem de olhar para dentro de si, reconhecer as próprias imperfeições e aceitar a verdade sobre quem se é. O exame interior honesto, sem autoindulgência nem autoflagelação, é o primeiro passo.
Em O Livro dos Espíritos, questão 919, os Espíritos Superiores nos ensinam: “Conhece-te a ti mesmo”. Este é o ponto de partida para toda reforma íntima. Ao nos conhecermos, podemos identificar as raízes do orgulho e do egoísmo que alimentam a hipocrisia e trabalhar para extirpá-las. A sinceridade, que é a antítese da hipocrisia, deve ser cultivada em todos os nossos atos e pensamentos. Ser sincero consigo mesmo e com os outros, mesmo que isso signifique expor as próprias fraquezas, é um ato de coragem e de fé na verdade.
A humildade, por sua vez, nos liberta da necessidade de aprovação externa e nos permite agir pelo puro amor ao bem, sem buscar recompensas ou reconhecimento. A prática da caridade verdadeira, aquela que é feita sem alarde, sem ostentação, com o único propósito de auxiliar o próximo, é um poderoso antídoto contra a hipocrisia. Quando o coração se abre verdadeiramente ao amor e ao serviço desinteressado, as máscaras caem naturalmente.
A hipocrisia é um véu que obscurece a luz da alma e retarda o progresso. Ela é a manifestação de um Ser que ainda se debate entre as sombras do orgulho e do egoísmo, buscando a aprovação dos homens em vez da elevação a Deus.
Jesus, o Mestre por excelência, nos convidou à simplicidade, à pureza de coração e à sinceridade em todos os nossos atos. A verdadeira virtude reside na intenção pura e no amor desinteressado.
Que possamos empreender a jornada do autoconhecimento, despojando-nos das máscaras da hipocrisia e cultivando a sinceridade em nossos corações.
Lila
[1] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, capítulo XII: “Perfeição Moral”, questões 913 a 917.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo VII: “Bem-aventurados os pobres de espírito”.
[2] Os fariseus eram um grupo religioso e político influente no judaísmo, surgido por volta do século II a.C., que se dedicava à interpretação rigorosa da Lei e às tradições orais.
[3] Ditador do Reich Alemão, principal instigador da Segunda Guerra Mundial e figura central do Holocausto.
[4] Nosso Lar, Ação e Reação; Libertação
[5] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo VIII: “Bem-aventurados os puros de coração”.
*Pesquisa realizada com o auxílio do Adapta.org
