O Apocalipse de João contém revelações de Jesus dirigidas umas de forma genérica a todas as criaturas, outras em formato de epístolas com destino certo a cada uma das sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia, conforme suas necessidades específicas. No introito dessas missivas o Senhor deixou claro que a todas conhecia de sobejo, seja pelas obras, seja pelos desvios e, fazendo uso do poder correcional, passa a ordenar os ajustes necessários.

A expressão que serve de título a este ensaio foi inspirada na carta enviada à Igreja em Laodicéia. Textualmente: 15. “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera (oxalá) fosses frio, ou quente!”  16 “Assim, porque és morno, e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”; 17. “pois dizes: estou rico e abastado, e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.”

Emerge claramente do texto que o Mensageiro divino fez uso do costumeiro processo analógico para qualificar os cristãos segundo a temperatura de seu comprometimento com a obra. Quentes são os que a ela se dedicam de corpo e alma, sem restrições, discussões estéreis, apontamentos infelizes, desvio de foco, perda de objetividade, sempre firmes e fiéis aos postulados divinos consubstanciados em Seu Evangelho. São os que, embora eventualmente colocados em evidência, nada exigem, nada esperam, não pleiteiam benefícios, porque simplesmente “obedecem à Lei de Colaboração Fraterna, preocupados que estão em compreender e considerar com amor a situação alheia”.

Incontáveis os exemplos desses cristãos quentes, que ao longo dos séculos deixaram suas marcas, uns entregando suas próprias existências em holocausto para a consolidação da obra, como os primeiros mártires, dentre os quais merece destaque o grupo composto de 40 jovens que, por força do destino, uniram-se sob o céu de Galla, região da Capadócia, Turquia, nos anos 300 dC, num laço tão forte e significativo que mereceu da Espiritualidade o símbolo de uma corrente de ferro ideoplástica contendo precisamente quarenta elos. Sempre fiéis aos puríssimos ensinamentos crísticos, resistiram até à morte ao assédio das autoridades eclesiásticas dominadoras, que insistiam em infiltrar os dogmas judaicos em seu núcleo de prece e de auxílio fraterno. ([i])

O cristão frio é aquele que reconhece em Jesus a figura do líder espiritual que revelou ao mundo o caminho para a salvação, mas não está interessado, ao menos por ora, em segui-Lo, tampouco realiza ações beneméritas, ou seja, na fé ou nas obras, queda-se indiferente.

Na palavra dirigida ao líder laodicense, está claro que a mornidão constitui o pior dos estados do espírito sedizente cristão porque, enquanto os frios podem se tornar quentes, e o quente pode se tornar fervoroso, o morno se acomoda e não muda de temperatura, convicto de que tudo realizou, segundo seu programa de vida, nada mais tendo a fazer, achando-se salvo para a vida eterna.([ii])  Sem dúvida, a tibieza, é típica daquele que se arvora na condição de redimido, pelo simples fato de haver realizado minimamente alguma obra assistencial, haver estudado as Escrituras e adquirido certo grau de entendimento e, a partir desse estágio, nada mais almeja porque, presunçoso e vaidoso, estaciona à sombra, ao largo do caminho, embora saiba que a jornada evolutiva está apenas começando.

Para estes, Jesus chegou a utilizar uma expressão nada cortês: 16.  “…estou a ponto de vomitar-te da minha boca”, significando o grau de repugnância que essa tepidez lhe causava, notadamente diante das inúmeras oportunidades que foram canalizadas pelo Alto em benefício desses Espíritos que se acomodam, desafiando deliberadamente a Lei de Progresso. Por isso infelizes, cegos e nus.

A par desse desabafo, certo é que o Divino Mestre cuidou de dar as diretrizes que a hipótese merecia: 18. “aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha de tua nudez, e colírio para ungires os teus olhos, a fim de que vejas.”

O ouro refinado pelo fogo é aquele bem espiritual intransferível “que se adquire através do trabalho árduo, de profunda compreensão, de vitória sobre si mesmo, de esforço incessante, conferindo ao Espírito a posição de ascendência legítima, de bem-estar permanente, além das transformações impostas pelo sepulcro”.([iii])

Comprar vestidura branca representa a vitória individual que resulta no desapego dos interesses materiais. Ainda que alguns bens componham nosso patrimônio material, é de rigor saber deles fruir, deles desapegar, porque somos apenas seus usufrutuários. A lição do Ministro Sânzio a André Luiz ([iv]) é por demais elucidante: …”seja onde for, encarnado ou desencarnado, na Terra ou noutros mundos, gasta, em verdade, o que lhe não pertence, recebendo por empréstimo do Eterno Pai os recursos de que se vale para efetuar a própria sublimação no conhecimento e na virtude”.

A aquisição do colírio figura como um contributivo para que o aprendiz aperfeiçoe o seu olhar e tenha olhos de ver no quadro da vida os cenários promissores, os horizontes que refletem a luz divina, a iluminar o palco de sua existência, estimulando-o ao serviço incansável na obra redentora e no aprimoramento de si mesmo. Mas como adverte o Instrutor Espiritual Emmanuel, para merecer esse beneplácito “é indispensável erguer os olhos, elevar o entendimento e santificar o raciocínio” ([v]) porque nada se adquire sem esforço.

Feitas essas rápidas considerações, é chegada a hora de indagarmos em que temperatura nos encontramos nesse termômetro espiritual que mede o cristão, e que mais severamente mede o espírita, na medida em que este tem a seu dispor todo um aparelhamento doutrinário habilitado a lhe abrir os olhos com a lente da verdade.

Vejamos se nos acomodamos, deixando de lado as leituras edificantes e nos fossilizamos nos parcos conhecimentos adquiridos, ou se permanece acesa a chama que nos inspira a ampliá-los; se abandonamos as atividades beneficentes; se ainda nos escravizamos às coisas materiais, embora saibamos delas não sermos titulares; se negligenciamos o hábito da prece. Anotemos ainda, sempre honestamente, se atingimos grau de entendimento sobre os axiomas crísticos amor ao próximo e perdão; se nos damos por satisfeitos com a pequena reforma íntima até aqui alcançada, ou se pulsa em nós a permanente vigilância e o ânimo de alcançar patamares superiores. Ainda, se podemos assumir o posto de novos samaritanos diante das situações afligentes nos dias que correm, ou se melhor nos parece retratar a miséria alheia pelas lentes de um telefone móvel.

Roguemos a Jesus que releve nossas fraquezas e nos curvemos às Suas reprimendas educativas.

 

Marcus Vinicius

 

 

 

 

 

[i] ESQUINA DE PEDRA (A) – Wallace Leal V, Rodrigues – Casa Editora O Clarim.

[ii]ESPLENDOR DAS BEM-AVENTURANÇAS (O) – Mário Frigéri – Terceira Bem-aventurança – Mundo Maior Editora – pág. 79.

[iii] CAMINHO VERDADE E VIDA –Espírito Emmanuel, pela psicografia de Francisco C. Xavier – FEB, Cap. 135.

[iv] AÇÃO E REAÇÃO – Espírito de André Luiz, pela psicografia de Francisco C. Xavier FEB, pág. 88.

[v] VINHA DE LUZ – Espírito Emmanuel, pela psicografia de Francisco C. Xavier – FEB, nº 10.

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