Jericó era o que se podia chamar de uma cidade encantadora. Situada próximo ao rio Jordão e a Jerusalém, constituía o orgulho da Judeia. Suas estradas bordadas de flores e laranjeiras eram um festival de perfumes e cores.
Essa cidade bastante antiga, data de quase 7000 anos antes de Cristo. Foi destruída inúmeras vezes, mas sempre teve suas muralhas reconstruídas. Foi palco de terríveis flagelos, como ocorreu por volta do século XVII a.C., quando foi incendiada.
Passado esse tempo primitivo, foi reconstruída por Herodes, que não só a embelezou, como preservou toda a sua grandeza histórica.
Tornou-se uma cidade de belas residências e mansões, que hospedavam pessoas ricas e cultas.
Era quase passagem obrigatória entre a Galileia e Jerusalém.
Jesus a visitara inúmeras vezes quando se dirigia à Cidade Santa, e fizera nesse local contatos comovedores, como por exemplo, com Zaqueu, o cobrador de impostos, que se fizera detestado pelo povo, mas que sendo tocado pelas notícias que Dele ouvira, subiu em um sicômoro (figueira) a fim de vê-LO passar, quando foi convocado pelo Mestre, a recebê-LO em seu lar.
Foi também, em uma estrada de Jerusalém que conduzia a Jericó, que o Mestre compôs a belíssima Parábola do Bom Samaritano, ensinando bondade e amor desinteressado, como recursos para entrar no Reino de Deus.
Naquela cidade, portanto, Jesus operou fenômenos incomparáveis, despertando a sensibilidade da multidão que O acompanhava.
Os personagens deste apontamento (cegos) entram em cena, no momento da saída de Jesus, que estava acompanhado de grande número de pessoas de diferentes aldeias e dali mesmo por onde passara. Ele estivera em Jericó e deixava seus domínios.
Dois cegos que mendigavam à beira do caminho, ouvindo os alaridos e cânticos de gratidão e de júbilo, começaram a gritar, pedindo socorro ao Mestre. Eles não conheciam as claridades nem as cores da Natureza, mas eram também filhos de Deus, e desejavam participar do banquete de felicidade em que todos ali se encontravam.
Tamanho era o barulho que faziam, que foram repreendidos para que se calassem. Mas… como silenciar o sofrimento, perdendo a única oportunidade de libertar-se dele?
Jesus, então, deteve Seus passos, aproximou-se deles e perguntou-lhes:
Que quereis que vos faça?
A resposta não se fez esperar:
Senhor, que os nossos olhos sejam abertos, permitindo-nos ver a claridade da luz.
A multidão que acompanhava o Mestre, antes barulhenta e agitada, tomou-se de um silêncio incomum, para ver o que aconteceria…
Toca-lhes, Jesus, os olhos, suavemente, e uma onda de energia penetrou-os, rompeu-lhes o véu da noite e a escuridão deu lugar à luz que os invadiu, provocando de início uma forte dor, que foi seguida por intensa alegria.
A história da Boa Nova se constitui de ensinamentos verbais e ações profundas de libertação, alcançando o máximo de realizações para que todos soubessem quem era o Cantor, e qual a canção que entoava… Todavia, nem todos estavam prontos para O seguir.
Jericó presenciara a cura do cego Bartimeu, mas não se sabe o que lhe aconteceu, se mergulhou no oceano das claridades espirituais ou se tombou nas sombras do prazer e da alucinação.
Zaqueu também era de Jericó e mudou sua vida após receber o Mestre em seu lar.
Os dois cegos do caminho recuperaram a visão, mas não se tem notícia de que tenham seguido o caminho da luz ou se voltaram às sombras densas da alma.
Caro leitor, a cegueira interior para as verdades espirituais do mundo de ontem são as mesmas do mundo de hoje. As sucessivas reencarnações trazem de volta os homens e mulheres do passado para o encontro com a Verdade que postergavam.
Nos dias atuais, Jericó conserva o mesmo nome. Está localizada na Cisjordânia, na Palestina.
Jesus percorreu suas estradas espalhando bênçãos, distribuindo amor e ensinando os meios para se alcançar o Reino de Deus à multidão carente, que O seguia embevecida pelas histórias que contava, enchendo os corações de esperança sobre um futuro promissor.
Os milênios rolaram na esteira do tempo, e hoje, o que vemos é uma Jericó completamente destruída pela guerra atroz.
Que ventos sombrios escureceram aqueles sítios dantes tão acolhedores, embelezados por uma Natureza pródiga de flores e frutos que mantinham sua psicosfera perfumada e céu estrelado?
Hoje o povo morre à míngua; os bombardeios incessantes, com o auxílio da alta tecnologia, tudo destroem, e as ruínas misturam-se ao pó dos corações endurecidos que comandam os ataques…
O mundo inteiro, estarrecido, assiste ao extermínio em massa desse povo, e todos manifestam sua indignação, mas, continuamos cegos para o entendimento da Verdade, da Justiça Divina, da Imortalidade do Espírito, da Lei de Causa e Efeito, e de tantos outros princípios cristãos que, se incorporados em nossa mente, certamente tais ocorrências jamais se dariam.
Para onde caminha a Humanidade?
Até quando os véus espessos da ignorância cobrirão nossos olhos?
A Mensagem Dele volve às criaturas distraídas que não têm ouvidos para ouvir nem olhos de ver…
Entusiasmados pela Ciência e pelos avanços da Tecnologia, centenas de milhões de criaturas veem, mas são cegos para seguirem pelo caminho de libertação que Ele continua apontando. Veem, sim, mas não enxergam… Têm olhos que brilham, mas que ainda não perceberam a luz do discernimento nem da misericórdia.
No entanto, dia virá em que a cena da Sua saída de Jericó se repetirá para a Humanidade, e os cegos bradarão: “Senhor, tem misericórdia de nós…”
E Ele abrirá os olhos de todos para a renovação e a vida eterna, no mundo de hoje que faz lembrar a Jericó de ontem.
Adaptação do cap. 8 “Cegos para a Verdade” (Mt. 20: 29 a 34) da obra “Vivendo com Jesus” por Amélia Rodrigues / Divaldo P. Franco.
Yvone
