No ano de 2021 o Instituto Meimei de Belo Horizonte publicou na internet (www.portalser.org), a obra denominada Projeto Mateus 24, tratando do sermão escatológico ou profético de Jesus, abordado no Evangelho de Mateus, capítulos 24 e 25, fato que deu origem ao nome da publicação.

Os coordenadores do projeto tomaram o cuidado de não identificar, em um primeiro momento, os autores espirituais responsáveis pela obra. Por essa razão designaram os três Espíritos com os codinomes Autor 1, Autor 2 e Autor 3, evitando que o conhecimento dos seus nomes acabasse por comprometer a análise objetiva e criteriosa do material recebido pela médium mineira Janaína Farias.

Três anos após (2024), o Projeto Mateus 24 converteu-se na obra cujo título é Ainda não é o fim, após os seus coordenadores convencerem-se, por análises detidas dos textos e interações periódicas com os próprios autores espirituais, de que o livro deveria ser publicado com a assinatura de Bezerra de Menezes, Honório Abreu e Léon Denis, que comentaram os versículos 1 a 14 do citado capítulo 24 do Evangelho de Mateus.

Certamente os nomes de Bezerra de Menezes e Léon Denis são mais familiares aos nossos ouvidos, enquanto Honório Abreu, talvez um tanto menos conhecido, foi um dos grandes expoentes do movimento espírita em Minas Gerais a partir de meados do século passado.

Obviamente não trataremos dos quatorze versículos, mas apenas de um deles – o segundo, que nos dará a oportunidade de refletirmos sobre os momentos em que vivemos, certamente os mais essenciais da existência humana na Terra, a partir dos avisos carinhosos Daquele que nos preparou o caminho e aguarda o nosso esforço de modificação, por menor que seja.

É fato que o tema da auto-reconstrução, no sentido de estabelecermos e executarmos metas de modificação para melhor em nós mesmos, tem sido explorado com recorrência neste informativo. Porém, melhor sermos redundantes do que omissos, até porque, pelo que sabemos, a sétima e última trombeta já ressoou, alertando-nos o despertar.

Por isso, relembramos a passagem inesquecível de Jesus caminhando pelas cercanias do Templo de Jerusalém, dois dias antes da sua prisão no Monte das Oliveiras. Alguns apóstolos se aproximaram, exaltando a grandiosidade e a suntuosidade da construção. E então o Mestre lhes respondeu: “Vedes tudo isso? Pois eu vos asseguro que desmoronará, sem que fique pedra sobre pedra.” (Mt 24:2)

A interpretação imediata desta passagem refere-se à profecia da destruição do Templo de Jerusalém, ocorrida cerca de quatro décadas mais tarde, no ano de 70 d.C, por ordem do então general Tito César Vespasiano (futuro imperador), como forma de repressão às constantes revoltas dos hebreus contra o domínio romano.

Léon Denis pontificou na obra citada que: “É da vontade do Senhor que corpos, mundos, sistemas, Universos, templos de adoração e glorificação de Deus – se desfaçam e se refaçam, não sobrando pedra sobre pedra que não seja derribada.” (Não ficará pedra sobre pedra, pág. 64).

De fato, é da Lei que tudo se transforme, e na própria Doutrina Espírita encontramos a justificação para esse estado de coisas: “Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. O que chamais destruição não passa de uma transformação que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos.” (O Livro dos Espíritos, questão 728).

A barbárie que leva à destruição, ainda muito presente na natureza humana, cumpre, por vias reflexas, os objetivos de modificação e reconstrução, não só dos lugares físicos onde ocorrem, como também das criaturas que gravitam em torno deles. São as grandes sacudidas que a vida dá nos Espíritos imortais ainda retardatários, convidando-os ao caminho do progresso, mesmo que à custa de sofrimentos e sacrifícios que não são gratuitos, porque decorrem da paralisia, da inação desses mesmos Espíritos (nós).

A destruição do templo, em ambas as oportunidades, não refletiu apenas a sanha de violência e incompreensão dos seres humanos. Também cumpriu o imperativo do progresso que não se harmoniza com o desvio de rota, a adulteração de pressupostos éticos e de princípios sagrados.

As invasões e destruições perpetradas por babilônicos e romanos, assim como as guerras, as pandemias, as manifestações de fúria da Natureza, os assassinatos de toda a ordem que histórica e ciclicamente campeiam a trajetória humana, não representam, senão, a ação dessa Lei no sentido de empurrar o Espírito imortal, é bom que se esclareça, para que busque, em conjunto com os seus pares de caminhada, as correções de rotas necessárias ao processo evolutivo. Em boa parte das vezes, tempos após não restar mais pedra sobre pedra, é que se observam modificações extraordinárias, progressos notáveis e criações cuja beleza e qualidade antagonizam com as estruturas que predominavam antes da destruição.

Porém, ao observar as pedras do templo e prever a sua destruição, Jesus não se referia, exclusivamente, às coisas da matéria ou do porvir. Sua ação pedagógica sempre tencionou a qualificação do Espírito imortal, mesmo se utilizando das figurações materiais.

E é nesse aspecto que o mesmo Léon Denis pousou os olhos em uma outra interpretação das palavras do Cristo, além do vaticínio sobre a sorte do Templo de Jerusalém, para observar um alerta sobre a necessidade de reformulação da nossa adoração, deslocando-a da pedra para o coração, do templo físico para o santuário íntimo, onde podemos nos entregar de alma consciente ao amor e à verdade. E para isso é preciso que a estrutura rígida que aparenta segurança e robustez seja derribada…” (pág. 63).  Isto significa dizer que o processo de maturidade espiritual das criaturas passa por tomar, nas próprias mãos, o caminho de ligação com Deus, sem que sejam necessários lugares específicos, terceiros intermediários, ritos diversos, supostas trocas para se obter os favores de Deus ou mesmo a humanização do Divino.

O templo a que Jesus se reporta não se restringe à construção de pedra, passível de transformação como tudo o que é matéria. Ele também se refere ao templo dos sentimentos, ao templo dos pensamentos e ao templo do Espírito que ao longo do caminho evolutivo são constantemente derribados, refletindo o bem em movimento nos seres talhados inexoravelmente à perfeição.

Nesse sentido, observamos a mesma cena em João 2:19. Disse o Rabi: Derrubai este templo, e em três dias o reconstruirei. E os hebreus contestaram, lembrando os quarenta e seis anos que se alongaram em sua edificação, pensando que Ele falava sobre o templo de pedra, sem entenderem que a referência de Jesus era sobre Si mesmo, que seria morto em sacrifício mas que, três dias depois, se “reconstruiria” nas diversas aparições relatadas nos Evangelhos e na libertação definitiva do seu Espírito.

E como bem esclareceu Bezerra de Menezes (pág. 52), a menção de Jesus que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada é gentil convite à libertação verdadeira, porque é da Lei que derrubemos as paredes que nos enclausuram, destruindo estruturas que construímos em nosso mundo íntimo, representadas por hábitos internos e externos que já não podem mais integrar a individualidade que realmente se cristianizou e que, por isso mesmo, se destrói e se reconstrói indefinidamente até a perfeição.

No país de nós mesmos há muros e templos de pedra que guardam campos estéreis e roupas rotas esgarçadas pelas traças. Um dia no passado, uns e outras nos foram úteis, promovendo a alimentação, mesmo que pobre em nutrientes, e a vestimenta, mesmo que de gosto duvidoso. Corrido o tempo até aqui chegarmos, o hábito, que é um acumulador, ainda se enamora do campo seco e dos andrajos descoloridos, não por necessidade visceral, tampouco por apreço genuíno, mas pelo simples gosto de deixar as coisas como estão, porque derrubar muros e templos é trabalho que faz sangrar as mãos, mesmo as mais calejadas.

Enquanto isso o tempo aguarda, como é da sua essência. Mas a sua relação de amizade com as fúrias da Natureza, com quem anda de braços dados desde que o mundo é mundo, acende um alerta ao hábito que é tão desatento, sinalizando que os tempos de hoje também são tempos de fúrias.

Cleyton

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