A obsessão, conforme definida pela Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, consiste na “ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo”. A natureza dessa influência pode manifestar-se desde uma simples perturbação moral até alterações significativas no organismo e nas faculdades mentais da pessoa afetada.[1]
Essa interferência espiritual não ocorre por acaso. Há sempre uma razão subjacente, que pode estar relacionada a vínculos estabelecidos em encarnações anteriores. Por vezes, a obsessão representa uma forma de vingança que um Espírito busca contra alguém com quem manteve relações em existências passadas.
Todavia, a obsessão nem sempre está relacionada a inimizades de vidas passadas ou vinganças, como muitos costumam pensar. Na maioria das vezes, ocorre exclusivamente por simples afinidade vibratória. Funcionamos como verdadeiras “antenas de rádio”, emitindo ondas mentais que se propagam e podem encontrar-se com ondas semelhantes emitidas por outros seres. Quando há semelhança na frequência vibratória, estabelece-se uma sintonia, criando uma conexão que permite a influência mútua.
A atração entre um obsessor e sua vítima, com ou sem vínculo pretérito, ocorre fundamentalmente pela sintonia vibratória e afinidade moral. Quando cultivamos sentimentos negativos como raiva, inveja, ciúme, orgulho, egoísmo ou quando nos entregamos a vícios e comportamentos desequilibrados, estabelecemos uma frequência vibratória que atrai Espíritos que se afinam com essas mesmas características. Semelhante atrai semelhante. Nossas imperfeições morais funcionam como verdadeiros ímãs para Espíritos que compartilham das mesmas fragilidades, criando um campo propício para a influência obsessiva.
Os maus Espíritos que habitam toda a Terra são consequência da inferioridade moral dos seus habitantes. Quando cultivamos pensamentos e sentimentos de baixo padrão vibratório como tristeza prolongada, raiva, rancor, inveja, ciúme ou qualquer outro sentimento de ordem inferior, estamos escolhendo, ainda que inconscientemente, nossas companhias invisíveis. Alguns exemplos práticos: uma pessoa medrosa tende a atrair Espíritos temerosos ou, ainda, que se “alimentam” do medo; um alcoólatra atrai Espíritos que apreciavam bebidas alcoólicas quando encarnados e, por conseguinte, recebem estímulo para continuarem no vício; alguém dominado pelo desejo de vingança atrai entidades que se comprazem na maldade; aquele que reclama com frequência das pessoas e situações da vida chama para si Espíritos insatisfeitos, que estimularão as lamúrias. Como dizia Chico Xavier: diga-me o que pensas e te direi com quem andas.
Diante de um quadro de obsessão, a sessão de desobsessão surge como importante recurso terapêutico. Durante essas sessões, realizadas em centros espíritas, médiuns preparados estabelecem comunicação com o Espírito obsessor, não para confrontá-lo ou expulsá-lo, mas para acolhê-lo com amor e compreensão. O objetivo é esclarecer o Espírito sobre sua condição, ajudá-lo a compreender que a vingança e o apego são prejudiciais ao seu próprio progresso espiritual, e encaminhá-lo para tratamento espiritual adequado.
Nessas reuniões mediúnicas, sob a coordenação de Espíritos benfeitores, o obsessor é tratado com respeito e compaixão. É convidado a refletir sobre suas atitudes e lhe é oferecida oportunidade de tratamento em colônias espirituais, onde poderá receber o auxílio necessário para sua recuperação e preparação para uma nova encarnação. Esse processo é conduzido levando-se em conta o livre-arbítrio do Espírito, que pode aceitar ou rejeitar a ajuda oferecida.
É fundamental compreender que, embora a sessão de desobsessão possa afastar a influência de um Espírito obsessor, ela não representa uma solução definitiva se não for acompanhada de uma mudança real em nossa conduta. Se continuarmos alimentando os mesmos padrões de pensamento e comportamento que propiciaram a obsessão em primeiro lugar, apenas abriremos espaço para que outros Espíritos, com a mesma sintonia vibratória, ocupem o espaço daquele que foi afastado. A verdadeira cura só ocorre mediante nossa transformação moral.
Livrar-se de uma obsessão por conta própria é tarefa trabalhosa, principalmente porque nossa natureza humana resiste às renovações morais necessárias. Apegamo-nos demasiadamente à aparência física, ao status social, aos bens materiais e, sobretudo, ao nosso ego. Reconhecer nossas imperfeições e trabalhar ativamente para superá-las exige humildade e determinação, qualidades que muitas vezes nos faltam. Ademais, o processo de reforma íntima é gradual e exige persistência, algo que nossa cultura imediatista tende a desencorajar.
Mais ainda, se não nos esforçarmos para nos modificar enquanto encarnados, corremos o sério risco de, após a morte do corpo físico, nos tornarmos nós mesmos obsessores. Isto ocorre porque as tendências e sentimentos que cultivamos durante a vida física permanecem conosco no mundo espiritual. Se, enquanto encarnados, não aprendemos a perdoar, a compreender, a amar e a superar nossas dificuldades, podemos nos ver presos a sentimentos de vingança ou a apegos terrenos que nos impelirão a buscar influenciar negativamente aqueles que ainda estão encarnados. Genericamente, a obsessão revela que não há diferença fundamental entre obsessor e obsidiado – ambos compartilham imperfeições semelhantes, apenas expressando-as de maneiras diferentes conforme seu estado, encarnado ou desencarnado.
O processo de libertação da obsessão passa, portanto, pelo autoconhecimento e pela reforma íntima. É preciso identificar nossas fragilidades morais e trabalhar conscientemente para superá-las, substituindo gradualmente sentimentos e comportamentos inferiores por virtudes como a paciência, a tolerância, o perdão e o amor desinteressado. A prática da prece, da meditação, do estudo edificante, do Evangelho no lar e, sobretudo, da caridade, auxiliam neste processo de transformação interior.
A obsessão, vista sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um problema a ser combatido e passa a ser compreendida como uma oportunidade de crescimento espiritual. Através dela, somos convocados a olhar para dentro de nós mesmos, a reconhecer nossas imperfeições e a trabalhar ativamente por nossa evolução moral. Ao fazermos isso, não apenas nos libertamos das influências negativas, mas também contribuímos para a elevação daqueles Espíritos que, por afinidade, estão ligados a nós.
A obsessão espiritual é uma excelente oportunidade para refletirmos sobre quem somos e quem desejamos ser. Revela-nos que somos todos, obsessores e obsidiados, seres em evolução, aprendendo através das experiências – por vezes dolorosas – que a vida nos proporciona. E, mais importante, mostra-nos que a verdadeira libertação não vem de fora, mas de nossa própria transformação interior, do esforço sincero em nos tornarmos pessoas melhores a cada dia, mais capazes de amar e servir, substituindo, assim, as vibrações de baixa frequência que atraem Espíritos obsessores, por energias elevadas que naturalmente nos conectam com Espíritos mais qualificados.
Lila
[1] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo 28, item 81.
Obras que abordam o tema “Obsessão”:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espírito. Capítulo IX
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Capítulo XXIII
KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulos II, III, XIV
XAVIER, F. Cândido pelo Espírito André Luiz. Nosso Lar.
XAVIER, F. Cândido pelo Espírito André Luiz. Libertação.
XAVIER, F. Cândido pelo Espírito André Luiz. Ação e Reação.
