Não são poucos os que contestam o Evangelho, no capítulo das aflições, quando observado sob a luz do conhecimento espírita.

Raros entendem o valor que o sofrimento e a dor representam na vida do Espírito em evolução que ainda jornadeia pela Terra. Costumam dizer que o Espiritismo faz apologia a todo tipo de atribulação, angústia e tormentos humanos; que para ser feliz, é preciso sofrer…

Afoitos e precipitados em conclusões errôneas, pois que lhes falta cabedal cognitivo sobre as Leis Divinas, põem-se a criticar e deturpar, pela própria ignorância, os desígnios de Deus.

O fato é que o Divino Poder a todos nos beneficiou com tesouros de incalculável valor, cujos significados profundos ainda não nos apercebemos, por se apresentarem naturais em nosso dia-a-dia.

Os recursos que mobilizam a máquina orgânica de que dispomos são bênçãos de elevada importância que, se bem aproveitados, nos ajudam a obter o êxito tão desejado no processo reencarnatório.

A título de exemplo, examinemos o mecanismo digestivo, e não poderemos negar a sabedoria d’Aquele que o elaborou, mantendo a harmonia entre os bilhões de células que trabalham em favor das substâncias nutrientes.

Consideremos a bomba cardíaca, que no seu pulsar incessante, permite que a corrente sanguínea atinja o objetivo de manter a vida orgânica.

Observemos a extraordinária função do pensamento, que é captado pelos neurônios e transformado nos encantos e maravilhas da Arte, da Ciência, do Universo.

Tudo que nos seja possível examinar, nos causa admiração e surpresa, desafiando-nos a inteligência para que compreendamos o milagre da vida.

Tudo se encadeia perfeitamente.

Ocorrência alguma tem lugar por ação do acaso, por automatismo da Natureza.

Há uma Lei de Causa e Efeito que responde por todas as dúvidas e interrogações que a mente possa elaborar.

Obviamente, não obtemos, em todo o tempo, tudo aquilo que desejamos, nem atingimos, continuamente, o alvo ao qual nos direcionamos; também não fruímos as alegrias que desejamos… Ainda assim, não nos entreguemos a uma revolta aparentemente justificável. Razões poderosas agiram para que assim fosse, pois, segundo a lei mencionada estamos recolhendo o hoje que merecemos, semeado no ontem.

Há que se considerar, todavia, que os momentos dolorosos, sofrimentos e aflições indesejáveis são recursos preciosos para evitar amargas situações no futuro, quando então não necessitaremos experienciar, se soubermos, agora, aceitá-los com paciência, aproveitando-lhes as lições retificadoras.

 

Leitor amigo, transcrevo para nossa reflexão, um diálogo ocorrido entre Leon Tolstoi, o grande escritor russo, quando era conde e muito rico, e um lavrador de sua propridade, que era muito pobre.

Em síntese, o camponês buscou-o para pedir-lhe ajuda financeira, expressando a sua miséria.

Relatou-lhe, na ocasião, os padecimentos que sofria, motivados por enfermidade de difícil cura; falou-lhe da escassez de alimento para os filhos ainda pequenos, uma vez que despendia vultosa soma em remédios para tentar sanar seu próprio mal; e mais algum tempo levou a comentar seus males, dizendo-se esquecido por Deus.

O conde ouviu-o com atenção e sabiamente respondeu-lhe:

─ Dou-lhe a importância tal, desde que me permita amputar-lhe o braço direito.

Surpreso, o camponês respondeu-lhe:

Senhor, o dinheiro será de muita utilidade, mas o meu braço direito é de importância capital.

O amo então lhe propôs aumentar o valor, desde que lhe pudesse amputar os dois braços, causando imediata negativa.

A pouco e pouco, ampliou o recurso, desde que ele anuísse em perder uma vista, as duas vistas… E a negativa era imediata…

Então, falou-llhe o conde:

─ Não digas que és pobre e miserável, porque todo aquele que não troca nem vende por dinheiro algum é dono de uma fortuna que deve bendizer todos os dias da sua existência.

 

O leitor que foi além de uma análise literal, certamente percebeu que a intenção do conde era demonstrar ao camponês, os valores sublimes que possuía e que não trocava por dinheiro algum. Queria fazê-lo entender que as adversidades da vida são preponderantes meios que a Divindade utiliza para ensinar aos homens o poder da superação e a necessidade de ressarcir suas dívidas com o passado culposo. E para isso, era indispensável saber aplicar os valores inestimáveis com que a vida o honrara e sempre bendizer a oportunidade de crescer e adquirir a sabedoria da paz. A paz que aceita, confia e espera, sem revolta, sem lamentações e sem abandonar a luta.

Se tivermos de escolher entre os valores transitórios que nos atendem durante a permanência na Terra, e os que fazem parte da vida eterna, não vacilemos.

Bendigamos nossas horas, dádivas e se possível, compartilhemos nossas alegrias e valores morais e espirituais com aqueles que necessitam de uma parcela de amor.

Yvone

 

Fonte de consulta: Vidas Vazias – Joanna de Ângelis / Divaldo P. Franco – cap. 9

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