Passaram-se décadas desde o anúncio da Espiritualidade acerca da transição planetária, que promoveria a Terra à condição de mundo de regeneração, estágio no qual predominam o bem, a solidariedade, reinam a paz e exercita-se o amor ao próximo. Notícia alvissareira que aplicou uma injeção de ânimo nos profitentes da fé cristã que, convictos na promessa do Cristo, de há muito preparavam-se para vivenciar essa conquista, trabalhando intensamente suas reformas interiores.
Contudo, o tempo percorrido deixou um rastro aparentemente decepcionante. Conflitos armados eclodiram em algumas regiões, varrendo do cenário físico milhares de Espíritos reencarnados e criando grupos de refugiados que, pelo número de componentes, passaram a ser rejeitados pelas Nações que antes os acolhia, transformando-os em criaturas literalmente desterradas. Fome e miséria ainda grassam.
Fenômenos sociais vieram à tona, revelando a forte inclinação do Ser Humano para os desmandos em torno de drogadição (toxicodependência) como alternativa para evitar enfrentamentos morais, ou simplesmente para assegurar sensação enganosa de prazer durador, através de comportamentos adictivos, enquanto as distorções sexuais ocupam as manchetes para gaudio geral. Pessoas de ambos os sexos implantam elementos estranhos em seus corpos físicos, quase sempre mutilando-os, com o propósito deliberado de se parecerem com animais selvagens ou mesmo domésticos. Grupos se formam e se apresentam em lugares públicos qual alcateia e passam a uivar e a latir; outros caminham como quadrúpedes, confiando a ponta de sua coleira a um condutor que imita um cuidador de pet.
Conhecíamos algo semelhante na literatura Espírita ([i]) ao tratar de casos de zoantropia, licantropia e similares, quando Espíritos desencarnados, em lamentável estado de desequilíbrio, alteram seus corpos perispirituais para se parecerem com animais. Presentemente, essas alterações se tornaram possíveis também na matéria densa, graças ao desenvolvimento da técnica e dos materiais disponíveis. A mais recente novidade sobre o delírio humano, que vem ganhando adeptos em vertiginosa escala, consiste na transferência de seus legítimos sentimentos – entrega emocional – para bonecos, aos quais as pessoas lobrigam dotar de individualidade, num processo auto obsessivo de fuga da realidade, para imitar uma maternidade, mas sem encargos.
O Brasil é hoje palco do mais abjeto exemplo de corrupção, atingindo Poderes constituídos, seus órgãos e instituições oficiais, seguido pelo empreendedorismo inescrupuloso. A criminalidade campeia. O feminicídio vem crescendo assustadoramente, não obstante os novos dispositivos legais e instrumentais criados na tentativa de inibição. O índice de suicídios aumenta. Comportamento ético é virtude da minoria. Faz todo o sentido. O vasto território brasileiro, cumprindo o seu destino de coração do mundo e pátria do Evangelho ([ii]) abriga a maioria dos Espíritos revéis, de poucos méritos, cujas consciências pesadas se afinam com as sombras terrenas que aqui reencarnaram para a derradeira chance antes do expurgo.
Muito se teria a discorrer sobre esse estado de coisas que causa espanto, atemoriza e parece pôr em risco toda a ideia mater regenerativa. Tem-se a falsa impressão de que o veículo que conduz a Humanidade por estrada pavimentada rumo à evolução constante, derrapou numa curva, perdeu o controle e bateu no gradil, danificou-se, interrompendo a viagem e deixando mutilados sem conta. Quem se salvou aguarda aflito no acostamento a chegada do veículo reserva.
Acalmemo-nos, todavia, pois tudo não passa de mais uma série de episódios, verdadeiros incidentes de percurso, como tivemos inúmeras vezes nessa mesma viagem quando os impérios Persa e Romano passaram como línguas de fogo varrendo o planeta, instalando dores e cobrindo sua atmosfera com uma nuvem negra que a custo foi parcialmente dissolvida; quando os primeiros cristãos foram perseguidos e executados; nos tormentosos Dias de São Bartolomeu, na França; quando das duas Grandes Guerras; por ocasião do Holocausto; bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki; várias epidemias. Tudo por criação e obra – conta e risco – do Ser Humano, o ilustre passageiro dessa magnifica composição que trilha os caminhos do Progresso, sob o comando seguro do Divino Condutor.
Para nos confortar quanto aos propósitos dessa viagem e do destino seguro que nos aguarda, apesar da sinuosidade da trajetória, recordemos a preciosa lição dada pelo Espírito do Dr. Bezerra de Menezes, a seguir sintetizada ([iii]), a qual, conquanto endereçada aos espíritas, é de inegável serventia a quantos trilhem os caminhos do bem, independentemente de sua convicção religiosa.
“O Brasil recebeu das Suas (de Jesus) mãos, através de Ismael, a missão de implantar no seu solo, virgem de carmas coletivos, com pequenas exceções, a cruz da libertação das consciências de onde o amor alçará voo para abraçar as nações cansadas de guerras, os povos trucidados pela violência desencadeada contra os seus irmãos, os corações vencidos nas pelejas e lutas da dominação argentária, as mentes cansadas de perquirir e de negar, apontando o rumo novo do amor para que restaurem no coração a esperança e a coragem para a luta de redenção”.
“Permaneçamos confiantes, os espíritas do Brasil, na missão espiritual da “Pátria do Cruzeiro”, silenciando a vaga de pessimismo que grassa e não colocando o combustível da descrença e das informações malsãs, nas labaredas crepitantes deste fim de século prenunciador de uma madrugada de bênçãos que teremos ensejo de perlustrar”.
“O Brasil prossegue, meus filhos, com a sua missão histórica de “Coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, mesmo que a descrença habitual, o cinismo rotulado de ironia, o sorriso em gargalhada estrídula e zombeteira tentem diminuir, em nome de ideologias materialistas travestidas de espiritualismo e destrutivas em nome da solidariedade”.
“Que nos abençoe Jesus, o Amigo de ontem – que já era antes de nós, o Benfeitor de hoje – que permanece conosco -, e o Guia para amanhã – que nos convida a tomar do seu fardo e receber o seu jugo, únicos a nos darem a plenitude e a paz”.
Conquanto novos conflitos internacionais tenham sido deflagrados após essa iluminada mensagem e o comportamento humano haja se esgueirado por trilhas obscuras, tomemos tento no sentido de que as experiências ora vivenciadas apontam para um limite intolerável, instante em que a tão esperada mudança regeneradora haverá de se consumar, como resulta da programação divina, sob o encargo do amoroso zelador Ismael, que recebeu o lábaro bendito das mãos compassivas de Jesus, e para a qual haveremos de estar preparados, sem lamentações, sem medo, mas com muito amor, paciência e tolerância, servindo de exemplos vivos da mensagem do Cristo de Deus.
Marcus Vinicius
[i] Diálogo com as sombras – Hermínio C. Miranda, FEB – 14ª Edição – Deformações, págs. 114/122
[ii] Brasil, coração mundo, pátria do Evangelho – pelo Espírito de Humberto de Campos e mediunidade de Francisco Cândido Xavier – FEB.
[iii] Mensagem psicofônica recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, em 05/11/1988, republicada em Reformador, ano 143, n. 2.354, maio 2025, págs. 14/16.
