As diversas experiências existenciais, bem como as emoções que as caracterizam, fazem parte do processo evolutivo da Humanidade.
Em Eclesiastes, 3:1/8, Salomão nos conduz por uma jornada de reflexão sobre o tempo e a vida humana.
Ele nos ensina que tudo tem sua hora determinada e há tempo para todo propósito debaixo do Céu. Eis algumas das reflexões:
“Tempo para nascer e tempo para morrer;
tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para ferir e tempo para curar;
tempo para demolir e tempo para construir;
tempo para chorar e tempo para rir;
tempo para dar abraço e tempo para a separação;
tempo para falar e tempo para calar;
tempo para a guerra e tempo para a paz.” (1)
Vamos focar nossa atenção, caro leitor, na reflexão “tempo para dar abraço e tempo para a separação”, tendo em vista a declaração do Mestre a seus discípulos, na última ceia: “Todavia, digo-vos a verdade: a vós convém que eu vá” (João, 16:7).
Nessa fala, Jesus como que adverte aos companheiros, que se aproximava a hora em que deveria deixá-los. E era preciso que assim fosse para que ocorresse, então, o crescimento deles, na exemplificação de tudo que haviam aprendido com Ele.
Transferindo a imagem para nossa esfera individual, isto significa que devemos passar pela experiência da separação nas mais diversas circunstâncias dentro de nossos agrupamentos afins (familiares, sociais, profissionais, religiosos), tais como, viuvez, orfandade, sofrimento da distância, ruptura de relacionamentos etc., capacitando-nos a viver a alegria do “estar junto” e do “estar separado”.
A convivência com alguém portador de qualidades que influenciam positivamente nossa personalidade, torna nossa experiência de vida mais rica de oportunidades, amoldando-nos o caráter em torno daquele foco energético.
Durante o convívio, assimilamos conselhos, copiamos gestos, atitudes, comportamentos morais, éticos e sentimo-nos gratificados pela presença amiga em nossas vidas, como um farol a iluminar passos vacilantes em estrada desconhecida.
Quem usufrui dessa felicidade haverá de sentir a dor da separação se as circunstâncias assim o exigirem.
Todavia, a saudade aflitiva será amenizada quando, na ausência do amigo, a sua presença se fizer sentir ao externarmos o que aprendemos com ele.
Foi o que aconteceu com os discípulos.
Para onde iriam sem Ele, que partira definitivamente para não voltar?
Guardavam uma vaga esperança de que seu Mestre enviasse Anjos para que os levassem a todos, sabe-se lá por que misteriosos meios, por que desconhecidas forças, a esse Seu Reino que tanto lhes havia anunciado…
Esses pensamentos, porém, eram fugazes, e desapareciam rápidos, assim como vinham.
E voltava o pesadelo… e a magia da recordação esboçava o desaparecimento daquele Ser extraordinário, cuja benéfica irradiação mantivera a todos num êxtase de intensa felicidade, cuja aura os fizera se sentirem seguros, fortes, otimistas, cheios de esperança e de fé.
Podemos, por isso mesmo, imaginar, que ao faltar-lhes esse astro sereno que os iluminara, isso foi para todos eles um desmoronamento profundo, uma desolação sem igual, como a que experimenta quem sente um vazio ao seu redor, ou submergir-se a terra sob seus pés, ou acabar o ar que lhe anima a vida.
“Derrubada a árvore que lhes dava sombra, as andorinhas levantam voo. Que ventos soprarão para elas nas regiões onde irão pousar?”(2)
Mas, porque foram intensos e decisivos os momentos desfrutados na companhia do Meigo Rabi, pouco a pouco o desconforto e a tristeza da separação foi cedendo lugar à prática das lições divinas tão bem insculpidas naquelas almas nobres, cheias de fé e gratidão pelo Mestre que lhes havia apontado o caminho.
E cada qual esboçou seu projeto de execução de uma obra divinamente iniciada e que seria continuada por eles.
Lembravam-se de tê-LO ouvido dizer: “Quando eu for levantado ao alto, atrairei todos para mim.”3) Essas palavras refletiam a visão premonitória do Seu Espírito, que via de longe a forma de Sua imolação. Os discípulos, entretanto, entendiam-nas como alusão à Sua ascensão ao Reino do Seu Pai. Compreenderam o verdadeiro significado só mais tarde, quando em plena atividade na propagação do Cristianismo se deram conta de que eles próprios eram os instrumentos através dos quais levariam o rebanho a buscar pelo Divino Pastor, e o faziam, refletindo o que Ele lhes ensinara.
Na realidade não há separação, e sim, continuísmo, embora situem-se as almas em dimensões diferentes.
Eis aí a alegria do “estar separado”.
Yvone
Fontes de consulta:
(1) Bíblia Sagrada – Edições Paulinas (Tradução dos textos originais dirigida pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma).
(2) Cumes e Planícies – Josefa Rosalía Luque Alvarez – Vol I – cap. 1.
(3) Idem.