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O Cristo acendeu uma chama de esperança para as mulheres, nas páginas da História, acenando-lhes um caminho de transformação espiritual. Jesus, com seu amor revolucionário, elevou o papel feminino de meras espectadoras a protagonistas da fé, desafiando milênios de opressão. Em Sua jornada inspiradora, o toque do divino Mestre ressignificou a essência feminina, revelando sua força, sabedoria e capacidade de amor incondicional. Das discípulas aos dias de hoje, a mulher continua a ser um farol de compaixão e renovação, espalhando a luz do Evangelho e transformando o mundo com sua graça e resiliência.

Retornemos aos primórdios, quando o Homem ainda vivia em cavernas. Nessa época, os papéis feminino e masculino estavam claramente definidos pelas suas características físicas: eles cuidavam da defesa e da busca por alimentação, elas ocupavam-se da perpetuação da espécie e garantiam que a prole fosse cuidada.

Herança desse período em que o vigor corporal era elemento fundamental para a sobrevivência, por muito tempo os mais vulneráveis fisicamente precisaram se submeter aos mais fortes. Todavia, essa relação de poder não impediu que a sensibilidade da mulher a elevasse à categoria de guardiã da família e, também, exaltasse sua sabedoria. A antiguidade pagã teve, sobre nós, a superioridade de reconhecer e cultivar a alma feminina. Sacerdotisas e videntes ocupavam posições de destaque, mostrando que as mulheres possuíam intuições profundas e percepções sutis, capazes de facilitar a conexão com o invisível.[1]

Contudo, essa realidade não se refletia no Oriente Médio, à época do nascimento de Jesus: ali, além do seu papel doméstico, a mulher era vista como fonte de tentação para o homem e, a fim de protegê-lo do pecado, a lei Mosaica determinava que ela deveria cobrir os cabelos e as pernas; não tinha autorização para falar com pessoas estranhas ao seu convívio; se estivesse sozinha, deveria manter-se a uma distância de ao menos seis metros das pessoas do sexo masculino; e somente poderia conversar com um homem na presença de um familiar. Ainda, dentre outras limitações, não poderia estudar, logo, o discipulado não seria uma possibilidade e, menos ainda, a tutoria.[2]

É possível imaginar, então, a quebra de paradigma que o Cristo trouxe ao se relacionar com as mulheres, de maneira afetuosa, protetora, acolhedora e respeitosa, dando-lhes destaque em momentos cruciais da Sua história.

Maria Madalena, aquela que se deitava com tantos, desprezada por todos, atormentada por Espíritos obsessores, foi acolhida por Jesus em seu grupo, caminhou junto aos apóstolos, era tratada como igual pelo Messias e tornou-se Sua discípula – pois que O seguia e aprendeu com Ele (Lucas 8:2-3). Ela foi a primeira a encontrar o túmulo vazio do Messias (João 20:1-21) e, também, a primeira pessoa para quem o amoroso Rabi apareceu, após a ressurreição (João 20:11-18). Esses eventos têm grande importância, destacando-a não só como seguidora, mas também como mensageira fundamental do Cristianismo.

Não somente Maria Madalena foi discípula de Jesus. Outras mulheres, como Maria, irmã de Marta e Lázaro, que se sentava aos pés do Mestre para aprender com Ele. De maneira expressa, o Evangelho de Lucas traz o termo grego mathêtria – “discípula” – usado para descrever Dorcas[3]. Ela era conhecida por suas boas ações e generosidade, e protagonizou um evento contundente para o fortalecimento do Cristianismo: tida como morta por se encontrar em estado cataléptico, foi trazida à vida por Pedro, reafirmando a mensagem dos apóstolos e robustecendo a fé dos crentes (Atos dos Apóstolos 9:36-42).

Em uma época em que um homem jamais poderia aceitar dinheiro de uma mulher, o movimento Cristão foi sustentado por algumas, destacando-se, especialmente, Joana, esposa de Cuza, administrador de Herodes (Lucas 8:1-3). Ela morreu queimada juntamente com seus filhos, mas não negou o Divino Mestre. Joana foi uma das encarnações de Joanna de Ângelis, Espírito autor de obras publicadas por Divaldo Pereira Franco.[4]

Durante séculos, a cultura tradicional do Oriente Médio entendeu que a honra da família era ligada à conduta sexual das mulheres. Então é possível imaginar o risco que o amoroso Rabi correu ao proteger a mulher adúltera ao dizer “aquele que não tem pecados, atire a primeira pedra” e, depois, perdoá-la. (João 8:1-11).

Quando o Mestre decidiu espalhar “oficialmente” a Boa Nova, escolheu uma mulher samaritana, rejeitada pela comunidade local por ter se casado inúmeras vezes e por viver em pecado com um homem que não era seu marido. Jesus, um judeu, a validou quando não a julgou, a escutou e bebeu a água que ela, uma não judia, extraiu do poço para saciar a Sua sede. Depois, dedicou tempo para ensiná-la e, em seguida, a encarregou de divulgar a Sua mensagem. O evento se deu em frente a um poço localizado em lugar deserto, sem testemunhas (João 4:1-42).

Importa observar, contudo, que se Jesus quebrou regras humanas para a implantação de Seu Evangelho, tenhamos tento para seguir-Lhe fielmente os ensinamentos de origem divina, sem dar margem a adulterações ou a interpretações conflitantes.

É possível que Jesus tenha sido o primeiro feminista da História, no sentido pleno do termo. Ele não queria que homens e mulheres fossem iguais – feito inviável, dadas as suas diferenças orgânicas, mas que tivessem as mesmas oportunidades e direitos. Essa intenção é evidente na maneira como Ele viveu.

A despeito de Seu esforço durante o período de Seu ministério, “a tradição e o espírito judaico prevaleceram, na Igreja, sobre o modo de entender do Cristo, que foi sempre benévolo, compassivo e afetuoso para com a mulher”. Essa permaneceu subjugada, foi discriminada e perseguida por sua habilidade de comunicação com o mundo invisível, sua capacidade de persuasão e intuição aguçada.  De fato, durante catorze séculos foram executadas mais de meio milhão de pessoas, sob pretexto de feitiçaria, a maioria, mulheres, tendo em vista que são mais numerosas dentre os médiuns. [5]

Ainda hoje, algumas correntes Cristãs mantiveram visões mais tradicionais acerca da mulher. Outras, contudo, buscaram reinterpretar e aplicar os ensinamentos do Cristo de maneira mais inclusiva, em especial, as espiritualistas, que vieram resgatar o papel da mulher como mediadora entre os mundos material e espiritual. Hermínio Corrêa de Miranda, em sua obra, Diálogo com as sombras, ressalta: “A grande sensibilidade da mulher a constitui medianeira por excelência, capaz de exprimir, de traduzir os pensamentos, as emoções, os sofrimentos das almas, os altos ensinos dos Espíritos celestes. Na aplicação de suas faculdades encontra ela profundas alegrias e uma fonte viva de consolações.”[6]

Reconhecer a mulher em sua plenitude é perceber que ela é um alicerce indispensável para a construção de uma sociedade equilibrada e harmônica. Sua sensibilidade, intuição e capacidade de altruísmo são atributos que, quando plenamente valorizados, permitem que ela cumpra seu papel de mediadora do amor e da sabedoria no mundo. Ao celebrarmos seu papel histórico e contemporâneo, reconstituímos o tecido social em sua forma mais resiliente e inspiradora.

Lila

 

[1] DENIS, Leon. No Invisível – cap VII – O Espiritismo e a mulher

[2] BAILEY, Kenneth E. Jesus pela ótica do Oriente Médio – Estudos culturais sobre os Evangelhos. Editora Vida Nova, Quinta parte, capítulo 14.

[3] Dorcas era o seu nome Cristão. Em aramaico, essa discípula se chamava Tabita.

[4] DE ÂNGELIS, Joanna e FRANCO, Divaldo Pereira. A veneranda Joanna de Ângelis.

[5] DENIS, Leon. No Invisível – cap VII – O Espiritismo e a mulher

[6] MIRANDA, Hermínio Corrêa de. Diálogo com as sombras – Capítulo 23.

 

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