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A busca pela liberdade é um impulso inerente ao Ser humano, frequentemente motivado pelas pressões e limitações do cotidiano. Assim como um animal que reage à prisão, debatendo-se até à exaustão em busca de libertação, o Homem, ao sentir-se restrito, aspira por horizontes mais amplos e luta por sua independência. Este desejo de libertação é passo importante na conquista de si mesmo, uma manifestação do anseio humano por plenitude e autossuficiência. No entanto, quando esse desejo é mal compreendido, pode levar a ações impulsivas e violentas.

Os direitos de “liberdade de expressão”, “liberdade sexual” e “liberdade de Ser como se quer” são frequentemente interpretados superficialmente, levando a um entendimento equivocado de autogoverno. A liberdade de expressão, por exemplo, é essencial para o desenvolvimento pessoal e social, mas quando exercida sem responsabilidade, pode resultar em discursos de ódio e desinformação, prejudicando o tecido social. Da mesma forma, a liberdade sexual, sem maturidade emocional e dignidade espiritual, pode levar a comportamentos destrutivos e consequências devastadoras. O direito de Ser como se quer, quando entendido como a liberdade de agir sem considerar o impacto sobre os outros, pode fomentar a anarquia e a desarmonia.

Muitas vezes, em resposta às compressões e injustiças sociais, o indivíduo recorre à rebeldia e à brutalidade, acreditando que assim alcançará a soberania pessoal. A violência pode romper com opressões políticas e sociais e, temporariamente, aliviar a sensação de opressão, mas invariavelmente abre caminho para novos conflitos e crueldades. A história está repleta de exemplos em que a violência gerou tratados de paz frágeis, sustentados pela sujeição e pelo medo, perpetuando ciclos de opressão e revolta. As conquistas materiais e políticas, como terras, objetos ou direitos são frequentemente confundidas com liberdade e não satisfazem a alma, sendo apenas paliativos que não tocam a essência do Ser.

Há, ainda, quem se utilize de ardis para alcançar objetivos próprios, evitando assim a violência, crendo-se livre ao agir conforme os próprios interesses. Todavia, mentiras, enganos, imposições e traições são incompatíveis com o sentimento de liberdade, pois tais comportamentos aprisionam a consciência em um estado de inquietação e culpa. A liberdade genuína requer o alinhamento com valores morais. Quando agimos contra tal princípio, podemos alcançar vantagens transitórias, mas elas também não satisfazem o Espírito, pois a consciência sofre quando nos desviamos da nossa natureza Divina.

A verdadeira liberdade, todavia, não é meramente a ausência de restrições externas, mas um estado de ser que resulta de um profundo compromisso com o autoconhecimento e a responsabilidade. Essa liberdade autêntica emerge de uma consciência tranquila, que se estabelece quando nossas ações estão alinhadas com princípios de amor e compaixão, proporcionando sensação de bem-estar e harmonia interiores. Ela exige um equilíbrio entre os desejos pessoais e o bem-estar coletivo, promovendo uma vida em consonância com valores espirituais mais elevados.

Em sua carta aos Gálatas, o apóstolo Paulo nos advertiu: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor”[1]. Embora pareça contraditório, servir aos outros é expressão de verdadeira liberdade: ao nos dedicarmos ao bem-estar alheio, libertamo-nos das amarras do egoísmo e do materialismo, conectando-nos com o Amor Universal e promovendo nossa evolução espiritual. O serviço altruísta nos aproxima do verdadeiro propósito da nossa existência, proporcionando a liberdade que transcende o plano físico.

Jesus nos legou o meio para se alcançar a liberdade verdadeira, através do conhecimento e prática dos ensinamentos fundamentais de amor ao próximo.  Ao pautarmos nossas ações nesses princípios, vivemos em conformidade com as leis naturais[2], que regem a vida e a evolução espiritual. Adquirimos, então, a capacidade de enxergar além das ilusões materiais e dos condicionamentos sociais, revelando a nossa essência espiritual e propósito maior.

“Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)

O alinhamento com essa Verdade nos permite transcender as limitações impostas pelas circunstâncias externas, de forma que encontramos paz e liberdade interior, mesmo em meio às adversidades. Figuras históricas como Gandhi e Sócrates são exemplos inspiradores: Gandhi demonstrou como a verdade e a não-violência podem libertar uma nação do jugo opressor. Sócrates, com seu compromisso inabalável com a verdade, mostrou que a liberdade reside na integridade moral e intelectual, mesmo diante da morte iminente. Segundo Joana de Ângelis, “Nenhuma pressão de fora pode levar à falta de liberdade, quando se conseguir ser lúcido e responsável interiormente, portanto, livre”[3].

A busca pela verdadeira liberdade é uma jornada espiritual. É um convite para transcender limitações e medos, para viver de maneira mais consciente e conectada com a essência Divina que habita em cada um de nós. “Livre é o Espírito que se domina e se conquista, movimentando-­se com sabedoria por toda parte, idealista e amoroso, superando as injunções pressionadoras e amesquinhantes”[4].

A liberdade é uma atitude perante a vida. Só há liberdade quando se ama conscientemente.

O Natal nos inspira a buscar uma liberdade que não apenas nos emancipe das nossas imperfeições, mas, também, nos conecte mais profundamente com os outros e com o Divino. Aproveitemos para renovar o nosso compromisso com a bondade, a compaixão e o serviço ao próximo, permitindo que esses valores guiem nossas ações no ano que se inicia.

Feliz Natal!

Lila

 

[1] Gálatas 5:13

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Terceira parte.

[3] FRANCO, Divaldo (pelo Espírito Joana de Ângelis). O Homem Integral. Capítulo 1, Liberdade.

[4] Idem

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