Do livro OBREIROS DA VIDA ETERNA[i] extraímos o episódio narrado pelo Espírito André Luiz, a seguir resumido.
Em certo evento ocorrido numa instituição espiritual denominada Templo da Paz reuniram-se vários Espíritos desencarnados com o objetivo de ouvirem alguns ensinamentos antes de partirem para expedições socorristas a entidades infelizes nos círculos mais baixos da vida espiritual que rodeiam a Crosta terrestre. Vários grupos espirituais ali acorreram interessados no aprendizado programado. André Luiz, o Assistente Jerônimo, o Padre Hipólito e a enfermeira Luciana compunham uma pequena equipe de trabalho.
Após os preparativos de praxe, foi apresentado o expositor da noite, ALBANO METELO, que sem delongas assumiu a palavra, começando por confessar que, ao despertar para a necessidade de evolução espiritual, fez disso uma busca obcecada. Fascinava-lhe a luz de cima. Rompeu todos os laços que lhe aprisionavam os sentidos. Sofreu muitos desenganos. Alcançou, enfim, o sucesso planejado. Do patamar em que finalmente se encontrava, deparou-se com o sofrimento e a ignorância que dominavam em plena treva. Desencarnados e encarnados lutavam uns contra os outros, em combates gigantescos, disputando prazeres. O ódio criava moléstias repugnantes, o egoísmo abalava impulsos nobres, a vaidade operava horrenda cegueira. Chegou a se sentir feliz por estar longe desse cenário. Vangloriava-se pelo sucesso espiritual alcançado, quando, certa noite, notou que o vale infeliz era banhado de luz. Observou que Seres angélicos desciam rápidos na direção das zonas mais baixas, atraídos por uma notável claridade. Indagou a um desses mensageiros do que se cuidava, obtendo uma resposta rápida, já que o interlocutor tinha pressa: o Senhor Jesus visita hoje os que erram nas trevas do mundo, libertando consciências escravizadas. Todos precisavam descer para colaborar com o Mestre diminuindo os desastres das quedas morais, amenizando padecimentos, pensando feridas, secando lágrimas, atenuando o mal. Vendo-se novamente sozinho na peregrinação para o Alto, refletiu sobre essa ascensão obstinada, despreocupado exatamente com a família humana junto da qual haurira conhecimentos e experiências. Esse nojo que sentia não fazia sentido, porque o próprio Cristo, que era sua fonte de inspiração, trabalhava pessoalmente nessas zonas, levando o socorro da Luz de Cima.
Percebeu, então, que era um egoísta. Não tinha sentido subir sozinho, como quem organiza um céu exclusivo para si mesmo. Deteve a marcha. Voltou-se. Efetivamente, o caminho vertical e purificador da superioridade é a sublime destinação de todos. O cume é sempre o desafio benéfico. O alto polariza as esperanças de quem ainda permanece em baixo. Todavia, à medida em que penetramos o domínio da altura, imprimem-se-nos na mente e no coração as leis sublimes de fraternidade e de misericórdia. Os grandes orientadores da Humanidade mediram a própria grandeza pela capacidade de regressar aos círculos da ignorância para exemplificarem o amor e a sabedoria, a renúncia e o perdão aos semelhantes.
Ao cabo, Albano sentenciou: É por esse motivo que necessitamos temperar todo impulso de elevação com o sal do entendimento, evitando a precipitação nos despenhadeiros do egoísmo e da vaidade fatais, e rogou aos colaboradores que se interessassem por aqueles que permanecem no vale das sombras e da morte, aguardando a esmola possível de seu tempo em favor desses semelhantes, defrontados agora por situações menos felizes em razão de sua própria imprevidência. Recordou à plateia que todos foram invigilantes um dia, ou seja, também mereceram amparo, e os concitou a se unirem no auxílio segundo os preceitos evangélicos, descortinando novos horizontes e aclarando os caminhos evolutivos aos irmãos necessitados.
Amigo leitor, graças aos ensinamentos evangélicos redivivos pela Doutrina dos Espíritos, sabemos de nossas deficiências morais; temos noção das virtudes que já acumulamos e daquelas que ainda perseguimos. Ao longo da luta pelo aprimoramento, cruzamos com os que nos estão acima e os que caminham na retaguarda. Aqueles inegavelmente nos auxiliam ou se dispõem a nos auxiliar, e muitas vezes esbarram em nossa dificuldade de compreensão e de interesse, adiando o socorro. Olhando para trás, divisamos companheiros de jornada que se demoram em lutas inglórias e que rogam a ajuda que está ao nosso alcance.
Não precisamos estar na posição ou em condição especial para auxílio, a exemplo de Albano Metelo, porque em qualquer grau de maturidade, teremos como auxiliar na obra de Jesus, respeitadas as nossas possibilidades. É certo que mais contribui quem se encontra em melhor condição espiritual, porque as energias psíquicas estão em maior equilíbrio, mas isso não inibe o que esteja na estrada evolutiva de lutar para vencer seus impedimentos e pôr-se a caminho com o mais necessitado, sabido que esse hábito muito contribui no combate interior.
Recordemos que os homens regenerados são aqueles que aprenderam a compartilhar deste mundo, contribuindo sempre para a sua manutenção e continuação, e que ao mesmo tempo, por perceberem que recebem à medida que doam, sustentam com êxito esse fenômeno de “trocas incessantes”. São os que descobriram que todos estamos ligados por inúmeras formas de vida… [ii]
Embora ainda não nos identifiquemos com eles, sabemos que é através do exercício contínuo do bem que incorporaremos a virtude da fraternidade.
Ninguém pode negar que atravessamos um cenário triste neste Planeta, com conflitos armados tomando vultos cada vez maiores, sem contar os desmandos individuais e coletivos que prenunciam autênticas tempestades morais e que, somados, põem em risco sua própria trajetória evolutiva para mundo de regeneração. Sem dúvida, é época de crise planetária. Conquanto seja este o quadro que transparece ao observador apressado, certo é que de outro lado cresce o contingente de homens regenerados ou em vias de, que se aprontam para prestar o auxílio justo onde e quando for necessário, até que essa tempestade passe. Esta, como todas aquelas tormentas que desde sempre assolaram o Planeta Terra passará, porque todas as dificuldades passam, deixando um rastro de ensinamento. Enquanto esperamos por esse tempo bom – depois da tempestade – construamos, enfim, para a eternidade, sem perder jamais de vista que, no processo de nossa ascese individual, “tudo pode morrer, exceto o amor. Só o amor merece a imortalidade dentro de nós” [iii].
Esses tempos especialmente difíceis devem ser, para nós Espíritas e para todos aqueles que, embora de outras crenças tenham olhos de ver, uma espécie de senha de transição [iv], mais um alerta, mais um toque do clarim a nos despertar a consciência para o trabalho humanitário de hoje, que garantirá a todos, dias felizes no futuro. Unamo-nos às forças do bem, “com otimismo e bom ânimo, a caminho de Jesus, com Jesus”, como recomenda Emmanuel.
Marcus Vinicius
[i] Obreiros da vida eterna – André Luiz, pela mediunidade de Chico Xavier – Cap. I – Convite ao bem.
[ii] Renovando atitudes – Espírito Hammed, pela mediunidade de Francisco do Espírito Santo Neto – 16ª edição, pág, 69.
[iii] Arantes, Ana Cláudeia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro; Sextante, 2019. A vida depois da morte: o tempo de Luto, pág. 182 – apud Reformador 2.344 – jul 2024 – Depois da tempestade – pág. 419/421.
[iv] Reformador – idem, pág. 421.